Rolando nas Redes: ‘O que esse médico da Santa Casa diz merece ser lido, pensado e compartilhado’

Vou começar com “um pouco” de drama, mas vocês vão me entender depois. Imaginem as seguintes situações:

– Seu filho tem um grave problema de saúde e necessita de um transplante de medula. Você não pode doar, pois seu sangue é incompatível.

Por mais que tentem, não conseguem algum doador. Mas você mantém a esperança…

– Há alguns meses, você foi informado de que, sem o transplante cardíaco, não há como reverter o seu quadro. Mas você tem que acreditar que tudo vai se resolver. Apoia-se na sua religião e diz que Deus há de resolver. E mantém a esperança…

– Algum familiar seu está entre os desaparecidos, em alguma catástrofe. Enquanto seu corpo não for encontrado, você mantém a esperança…

Chega de drama! Acho que todos entenderam onde quero chegar. A esperança, sozinha, não remove montanhas, não resolve problemas, não cria soluções. Esperança e fé são apenas dois coadjuvantes de uma série de procedimentos necessários para tentarmos superar as dificuldades ou problemas.

Dizem que a dor não mata, mas pode matar. Também dizem que a esperança é a última que morre, mas pode morrer. Dizem que contra fatos não há argumentos, mas sempre podemos argumentar sobre tudo que acontece. Outros dizem que contra números não há argumentos. Da mesma forma que disse anteriormente, tudo é passível de argumentação. Mas, temos que admitir que quando os fatos são baseados em números, a argumentação é muito mais difícil. Pois então, vamos aos fatos e aos números.

Iniciei a campanha em favor da Santa Casa, no dia 06/03/2019. Desde então, minhas postagens referentes a isso tiveram 4558 curtidas e 3331 compartilhamentos. Recebi milhares de mensagens, sem contar a infinidade de comentários que fizeram pessoalmente comigo. Isso instigou a debates e matérias em jornais, rádio, televisão ou pela internet. Pintou-se um clima de mobilização maior do que eu pensei inicialmente.

Pouca gente doou

Entretanto, li vários comentários demonstrando preocupação com a transparência das doações. Em nome dessa transparência, procurei acompanhar os números. Além de ter acesso aos valores, tive também acesso aos nomes daqueles que doaram. Para não me prolongar com maiores detalhes, vou fazer um resumo, em apenas uma frase: Ao longo desses 15 dias, foram doados apenas R$ 1400,00, por 13 pessoas.

Fica muito difícil argumentar contra fatos e números. Foi triste constatar que não consegui entusiasmar, encorajar, incentivar nem comover algum empresário ou alguém com disponibilidade financeira. Nenhum paciente, dentre os milhares que operei pensou em retribuir. Nenhum familiar de paciente que ali foi atendido. A única médica que doou, não trabalha no hospital. O único médico que doou, não mora em Pelotas. Nenhum estudante que passou pela Santa Casa doou. Desculpem se cometi alguma injustiça com alguém, mas não conheço, pelo nome, todos os doadores. Não estou querendo acusar ninguém, apenas estou relatando fatos e deixando clara a minha frustração. Apenas para exemplificar, com R$ 1400,00 não se paga sequer uma válvula para se implantar no coração.

Hoje estou completando 57 dias sem operar algum paciente do SUS. Os médicos pararam de me encaminhar novos pacientes, que estão sendo direcionados para outros serviços. Os pacientes que eu tinha agendados estão à procura de soluções alternativas. O fato é que a minha esperança pode morrer, mas eles não. Por via das dúvidas, vou sair dos trilhos, pois, como me disse um amigo, talvez a luz que se veja no final do túnel seja apenas a de um trem, em sentido contrário.

Não vou pedir desculpas por causar algum constrangimento em quem ler isso. A verdade é que a minha intenção foi exatamente essa. Para evitar constrangimentos futuros, não vou voltar a falar da Santa Casa. Quero apenas deixar registrado meus sinceros agradecimentos às 13 pessoas que atenderam às minhas solicitações.

Obrigado por participar.

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