“Talvez meus sonhos não estejam mais em Pelotas”

Odilson Silva, médico da Santa Casa, no facebook

Esta é minha última postagem, por tempo indeterminado.

Santa Casa de Pelotas

Tem dias que, mesmo com poucas nuvens no céu e o sol brilhando, parece que tudo é cinza.

Não prestamos atenção às cores, nem aos cheiros ou sabores. Nossos sentidos ficam anestesiados ou embotados. Exatamente nesses momentos, quando deveríamos estar mais atentos, para não nos deixarmos levar pelo marasmo, sucumbimos à indiferença.

Sei que é errado, mas é o que acontece. Porque para tudo existe um limite. E, mesmo que tentem nos animar, o máximo que conseguimos é transformar o cinza em bege, numa total falta de imaginação e num tédio deprimente.

Por motivos bem diferentes de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”.

Manuel Bandeira foi um poeta que, por ter contraído tuberculose, teve uma vida cheia de restrições. Pasárgada era uma cidade persa, escolhida por ele para representar um lugar onde ele pudesse fugir da realidade e realizar seus sonhos.

Talvez eu precise procurar minha Pasárgada. Talvez meus sonhos não estejam mais em Pelotas. Porém, se isso se confirmar, vou usar uma frase de uma música antiga: “Atesto, pra todos os fins, perdi”.

***
Aqui vai o poema de Manuel Bandeira:
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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