Dobradura temporal

Dobradura Temporal
Quem, antes de tomar uma decisão não teve medo? medo das consequências, medo de agir perante a uma situação confusa, a cruel dúvida de que talvez não fosse a melhor escolha, ou o calafrio de que precede a decisão quando se sabe que não se pode voltar atrás.

Quando crianças, em grande parte a consciência é destituída do peso invisível da responsabilidade que construímos quando adultos, ainda somos agraciados pela experiência real do que é viver.

Momento a momento, olhares sinceros, ações sem objetivos, dançar na chuva simplesmente por dançar na chuva, não nos importando se seremos acometidos por uma gripe, ou qualquer consequência posterior as nossas escolhas, porque ali, só  existe o agora, a propósito leitor, qual foi a última vez que você tomou um banho de chuva por espontânea vontade?

Crescemos um pouco e agora grande parte das nossas decisões são fundamentadas em sentimentos ardentes, o barco da vida é conduzido num mar de inúmeras possibilidades, e guiado por um barqueiro encharcado de impulsos infantis. Uma combinação aparentemente perigosa aos intrometidos que julgam e despontam críticas infames, falsamente apresentadas na forma de preocupações. Críticas essas arremessadas da margem supostamente segura de seu pomposo porto pessoal.

O crescimento de um indivíduo é permeado por podas constantes e conselhos aprisionadores, pois que indivíduo se torna independente quando o fruto de suas escolhas foi regado por outro? aquele fruto não é dele e inconscientemente ele sabe disso, e sente raiva de você.

Sábio o indivíduo que está feliz se ao fim de tudo este se encontrar no inferno, mas sabendo que suas próprias decisões o conduziram até lá, deliberadamente foi ao inferno, ele vai dançar a dança da liberdade. Pois antes isso do que alcançar o céu imaculado sendo conduzido pelos outros. Porque esse perene paraíso não pertence a ele.

Crescidos, oscilamos na proporcionalidade homem-máquina. Em nosso quarto ao despertar de uma sub-camada consciente de sonho, levantamos e somos conduzidos pelo tato cego de nossos braços mecânicos ao maior cômodo da casa, o armário das máscaras sociais. Pendendo dos cabides avistamos algumas possíveis escolhas para a segunda feira: A máscara do riso nervoso e aceno baixo de cabeça, aquela que usamos quando um conhecido faz um comentário racista, homofóbico ou machista. Ou talvez o sorriso Mick Jagger, já um pouco gasta de tanto usarmos para disfarçar nossas tristezas, e sentimentos desgostosos.

E por quê tudo isso, quão distantes estamos daquelas crianças que dançavam na chuva? que com pequenos bonecos, carrinhos e canetinhas coloridas éramos capazes de construir e encenar histórias dignas de aplausos ensurdecedores do magnífico Coppola. Só porque não vemos essa criança não quer dizer que ela não esteja lá. Não acredite cegamente em seus sentidos, invisível é diferente de inexistente. Feche os olhos por um momento e procure lembrar o que queria ser quando crescer, vasculhe sua mente em busca da lembrança mais antiga, recorde o seu primeiro e inocente amor. Lembre-se e não se esqueça, você tem uma responsabilidade com essa criança, ela ainda está dentro de você e ela sente saudades de dançar, de se arriscar, quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

Quando envelhecemos, nosso barco já está ancorado, nossas aventuras “Tolkianas” se restringem ao plano inconfiável da memória, as lembranças se plasmam como uma saudosa realidade, e pouco a pouco a tendência a sabedoria se torna chamativa. Reconhecemos que na realidade somos apenas um barco num mar infinito de outros barcos buscando incessantemente algum lugar diferente para chamar de porto. Agora, a velocidade do barco já não importa mais, o destino se tornou indiferente, podemos validar a observação de Heráclito a alçar a sabedoria de que  barqueiro mudou tantas vezes que já não sabemos quem realmente está conduzindo o barco, e finalmente,  que a única coisa da qual não prestamos atenção vai se dissolver e ser absorvida pela existência. Porque no final das contas somos tripulantes temporários num barquinho feito de papel.

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1 thought on “Dobradura temporal

  1. Parabéns para os amigos de Pelotas pela reportagem da Bruna. Fico feliz por ela foi feito justiça.

Obrigado por participar.

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