Seis anos sem Canini, pelotense por adoção, desenhista do Zé Carioca

Texto republicado para relembrar Canini, morto em 2013, para quem “tudo se resolve na infância”

Canini

Marcos Macedo

Na década de 1970, quando eu era criança, o primeiro contato que tínhamos com a leitura era através das histórias em quadrinhos. Existia uma banca de revistas que ocupava a entrada lateral do Theatro Sete de Abril, pela rua Quinze de Novembro. Ali eu e meus irmãos íamos com meu pai comprar as revistinhas.

Nós éramos três irmãos, e meu pai estabeleceu conosco um acordo: não iríamos comprar revistas repetidas; cada um faria uma coleção diferente. Um ficou com as revistas do Riquinho, Bolota, Brotoeja; outro, com as do Walt Disney; eu fiquei com as da Turma da Mônica.

Eu era bem menor que meus irmãos, seis e cinco anos mais novo; nessa época, eu tinha cinco anos, e eles dez e onze. Eu queria muito ler as revistas do Zé Carioca e do Pato Donald, mas meu irmão Leandro não emprestava, porque eu, sem querer, as estragava e rasgava. Ele as colecionava em pilhas muito organizadas, num armário que ele não deixava eu chegar perto. Com capricho, empilhava uma com capa para cima, outra com capa para baixo.

– Estou guardando para os meus filhos – justificava.

A idéia não podia ser melhor. Eu mesmo tantas vezes reclamei que meu pai não guardou os soldadinhos de chumbo dele! E eu, com cinco anos, juntei as minhas revistas todas, a Mônica número 8 e o Cebolinha número 1, empilhei tudo, uma capa para cima, outra para baixo, como o Leandro. Armazenei para durarem uns 40 anos, como o mais precioso dos tesouros, “para os meus filhos” também.

E os Zé Carioca e Pato Donald, eu pedia para minha mãe pegar no armário, enquanto ele dormia. “Mãe, hoje pega as mais antigas. As de baixo”. Eu aguardava ansiosamente no meu quarto. “Mãe, será que tu vais conseguir colocar as revistas exatamente no lugar de onde tiraste?”. Eu as lia com reverência, folheando com todo cuidado para não amassar. Para que nem o Leandro nem os filhos dele um dia notassem que eu as lia escondido…

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Passaram-se 40 anos. Hoje, a filha mais velha de meu irmão, Mariana, minha afilhada, completa dez anos. Pedro, o mais moço, está com seis. Moram em São Paulo. Meu filho, Diego, está com um ano e meio. Será que vão se interessar pelas revistinhas? São outros tempos, computador, internet, cem canais de televisão. E será que algum dia nós vamos ter coragem de entregá-las?

As revistinhas continuam guardadas na casa de minha mãe. Pato Donald, Zé Carioca, Tex, Cebolinha, Homem Aranha, Spirit. Meticulosamente empilhadas, uma com a capa para a cima, outra para baixo. Duraram os 40 anos.

E eu estou sentado diante de Renato Canini, 73 anos, o desenhista das histórias do Zé Carioca na década de 1970. Naquela época, meu mundo era imenso, ia do meu quarto até o pátio dos fundos. O armário do meu irmão com os Pato Donald ficava além das fronteiras. Eu nunca imaginei que um dia conversaria com o desenhista do Zé Carioca.

Estou fazendo tantas perguntas, guardadas sem resposta desde criança, que Canini ri:

– É uma matéria para o blog ou uma biografia?

Para mim, é como se estivesse conversando com o Zorro ou o Mickey Mouse.

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– Tudo se resolve na infância – acredita Canini.

O pai de Canini tinha uma farmácia em Frederico Westphalen. Meio a contragosto, para ganhar a vida, pois seu talento era o desenho. Rabiscava gente, cavalos, cachorros nos papéis de embrulho da farmácia. Muitos anos depois, Canini achou uns desenhos do pai, que ele na época achava muito bons, e viu que lhe faltou continuidade, explorar o dom.

O pai de Canini morreu em 1946, quando Canini tinha 10 anos. Sua mãe não podia cuidar dele, por isso ele e as três irmãs foram espalhadas pelas casas dos tios e avós. Daí em diante, Canini passou por várias temporadas em internatos de Gravataí e Passo Fundo. Em Passo Fundo, as professoras viram que ele desenhava bem e lhe deram uma bolsa de estudos na Escola de Belas Artes. “Colocavam um vaso e tinha de desenhar certinho”. Canini foi às aulas durante uma semana, e desistiu. “Não podia se soltar”. Não gostava de desenhar olhando, gostava de criar.
Autodidata, nunca frequentou um curso de desenho ou artes.

– O importante é a continuidade. A prática. Treinar. O artista começa copiando o desenhista que gosta. Depois se livra da influência. Com o tempo, começam a copiar a gente.
Em 1957, aos 21 anos, uma das tias quis que ele começasse a trabalhar. Em Porto Alegre, entrou para o curso de Contabilidade. Não gostava de matemática, era um pesadelo. Passava nas provas colando.

Levou uns desenhos seus na Secretaria de Educação e Cultura de Porto Alegre, que editava a Cacique, uma revista de leitura que era distribuída para os alunos das escolas. Foi contratado e abandonou a Contabilidade. Passou a trabalhar com outros desenhistas numa sala que a Secretaria alugava na Livraria do Globo. Por lá circulavam Érico Veríssimo, Mario Quintana e outros mitos da Editora Globo.

Em 1967, foi para São Paulo. Começou a trabalhar na Revista Recreio, da Editora Abril. Com mais quatro ou cinco desenhistas, produzia a revista. No mesmo andar, ficavam os quinze ou vinte desenhistas das revistas de Walt Disney. Canini não gostava da correria de São Paulo, queria voltar para o Rio Grande do Sul. Em 1970, ofereceram-lhe para desenhar o Zé Carioca em Porto Alegre, e mandar os trabalhos pelo malote para São Paulo. Na época raramente eram publicadas estórias do Zé Carioca. O personagem na maior parte das vezes só aparecia nas capas da revista. Canini aceitou a oferta e voltou para Porto Alegre. A partir daí todas as revistas do Zé Carioca tinham pelo menos uma estória do personagem.

Canini desenhou mais de cem estórias do Zé Carioca, fora as do Pateta e do Urtigão.

Revolucionou a imagem do personagem. Tirou-lhe a casaca, a gravata borboleta e o chapéu panamá. Vestiu-lhe uma camiseta e deu-lhe amigos negrinhos. Zé Carioca foi morar na favela, em casebres caindo e cheios de remendos.

O personagem Zé Carioca havia sido criado pelos estúdios Walt Disney, inspirado em José do Patrocínio, um sambista do grupo Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda em suas apresentações nos Estados Unidos.

As características iniciais do personagem foram aprimoradas quando o Zé Carioca passou a ser desenhado por artistas brasileiros. Acima de tudo, Zé Carioca não gosta de trabalhar. Acorda depois do meio-dia. Vive fugindo dos credores. E tentando se dar bem em cima dos incautos. Nada por ganância; o necessário apenas para sobreviver.

Em 1976, disseram que ele estava se afastando do padrão da Disney. Canini não aceitou que o Zé Carioca saísse da favela e fosse morar em “casa do BNH”, de alvenaria, que voltasse a vestir o casaco e a gravata borboleta. Foi demitido.

Só recentemente a Disney começou a creditar a autoria das estórias aos roteiristas e desenhistas. Canini gostava de desenhar alguns personagens com os traços de seus colegas de estúdio, ou colocava os nomes deles nas estórias, como “Farmácia Canini”, “Lavanderia Canini”. Mas vários desses registros para a posteridade foram descobertos pela Disney e raspados dos originais.

Quando a Disney resolveu dar crédito aos desenhistas, anos depois, foi um enorme trabalho descobrir quem havia feito o quê.

Nos anos seguintes, Canini colaborou com diversas revistas e jornais que ficaram na memória: Mad, Pancada, Pasquim, Coojornal. Criou personagens próprios, como Kaktus Kid e o indiozinho Tibica, que saiu no Correio do Povo e no Diário Popular, entre outros jornais do Brasil.
Há 13 anos mora em Pelotas. Casado com Maria de Lourdes, pelotense, também desenhista, gosta daqui. Está assustado porque sua casa já foi assaltada duas vezes. Em uma das vezes ele estava em casa, concentrado, desenhando. Viu os ladrões, mas achou que fossem pedreiros que iam fazer uma obra no telhado. Já havia levantado a grade do muro da rua e colocado cerca elétrica, mas isso não impediu os assaltantes, que entraram pela porta da frente.

Vai muito a Porto Alegre, onde reúne-se com Santiago, Edgar Vasques e Luis Fernando Veríssimo, entre outros, no Bar do Nani, em cima do viaduto, próximo ao Hotel Everest. Lá trocam desenhos, histórias e novidades.

Em outubro, Canini será o homegeado da Feira Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte.
Em Pelotas, cinco ou seis pessoas sabem quem ele é. “Quanto mais anônimo, melhor”, ele sorri, com timidez. “Não sou tão importante assim”.

Canini olha uma revista do Zé Carioca atual, que reedita suas estórias continuamente. Nas cartas dos leitores, pedem para republicar uma história que ele desenhou em 1974, e que ficou gravada na memória de alguém. Em seus desenhos, Canini acha defeitos no que eu considero obra-prima. “Ali tem um erro de proporção”: o braço de um personagem está pequeno demais. Outro quadrinho poderia ser desenhado de outro ângulo. Fica descontente com os traços que desenhou para a cabeleira do Zé Carioca.

Curiosamente, ironia do destino, Canini foi escolhido em 2005 o maior desenhista de Walt Disney no Brasil de todos os tempos. Suas estórias do Zé Carioca foram reeditadas numa coleção especial, Mestres Disney, com os melhores desenhistas da Disney de cada país. Foi reconhecido pelo estúdio, trinta anos depois, como o desenhista que “expandiu o universo do personagem, tornando-o muito mais brasileiro”.

– Hoje, eu faria muito melhor – examina Canini. Eu acredito, desacreditando. Lembro as revistinhas guardadas há 40 anos para os nossos filhos… Penso, “não mexa em nada”.

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