Lutando contra a depressão

Simoni

Campeã mundial de Muay Thai, a gaúcha Simoni dos Santos tem uma história inusitada: há apenas dois anos atrás, era uma dona de casa de 30 anos de idade, criando 4 filhos e uma sobrinha, pesando 100 quilos e com depressão, que “só queria chorar e ficar na cama”. Um amigo lhe emprestou um saco de areia para dar socos como uma forma de extravasar frustrações e, vendo que estava lhe fazendo bem tal “terapia”, em seguida lhe convidou para treinar Muay Thai.

A prática da arte marcial lhe ajudou a emagrecer e quando estava com 95 quilos ela já disputou seu primeiro torneio da categoria. Desde que começou, há dois anos, pegou gosto e não parou mais de praticar o esporte, até chegar ao improvável título mundial, conquistado em torneio na Tailândia, na categoria até 60 quilos.

Sua história merece ser contada, como exemplo do esporte como método de reação à depressão e ao mesmo tempo fonte de cuidados com o corpo e de autoestima. O caso dela não podia ser mais emblemático, pois contém todas as dificuldades das pessoas “normais”. Mesmo agora, campeã mundial, Simoni treina de manhã e de tarde, em horários alternados com as vendas que faz de docinhos que ela mesma produz, cerca de mil, que faz em casa à noite. O marido é mecânico e as filhas a ajudam nos docinhos.

A depressão é hoje o mais frequente transtorno psiquiátrico e os antidepressivos o segundo dentre os remédios mais vendidos no país (atrás apenas dos analgésicos), com mais de 60 mil unidades vendidas em 2016, segundo uma pesquisa que constatou 74% de crescimento das vendas em relação a seis anos antes.

Em Psiquiatria se estudam os fatores biológicos, psicológicos e sociais de cada transtorno e todos esses fatores são relevantes na depressão. Há pessoas com tendências familiares, há outras com evidentes conflitos emocionais desencadeantes e também há fatores sociais (por exemplo o bullying) que podem precipitar quadros depressivos.

Instalada a depressão, mesmo quando desencadeada por causas psicológicas, o organismo como um todo passa a ser afetado. Os antidepressivos são importantes principalmente no início, para ajudar a pessoa a reagir, pois a maioria das pessoas nesse estado não conseguiriam uma reação como a de Simoni, só com o esporte.

O esporte leva o nosso corpo a produzir endorfinas, que tem um efeito antidepressivo, conhecido como o “hormônio do bem estar”, que eleva o ânimo e a autoestima. E sabe aqueles chavões, como o de que “tudo passa pela educação” e que “esporte é vida”? São verdadeiros. Não existem panaceias, coisas que por si só resolvam tudo, mas o esporte é mesmo importante para a saúde física e mental.

Montserrat Martins é médico psiquiatra, autor de Em busca da Alma do Brasil

Facebook do autor | E-mail: montserrat@tjrs.jus.br

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