Chovendo no molhado

A retomada do debate sobre a construção de um porto em Torres nos remete ao que no livro “Navegando pelo Rio Grande” (JÁ Editores) foi descrito como “O Caminho de Garibaldi”, percorrido no inverno de 1839 por dois lanchões construídos num estaleiro farroupilha na foz do rio Camaquã.

A ideia de uma ligação marítima de Porto Alegre com o mar, sem passar por Rio Grande, tem mais de 150 anos. É uma velha obsessão gaúcha – com uma diferença: agora a onda se levanta em Torres, com foco em possíveis cargas da Metade Norte do Estado, despovoada na época da Guerra dos Farrapos (1835-1845).

A ideia é boa, mas põe no ar uma dúvida crucial: se o Estado não tem dinheiro nem para manter a histórica hidrovia Porto Alegre-Rio Grande, de onde viriam os recursos para construir o porto de Torres e toda a estrutura viária e de armazenagem para viabilizá-lo? Do Bndes… Essa não.

Outra pergunta correlata: o balneário torresino sobreviveria à poluição inerente às atividades portuárias?

Pensem no que aconteceu a Vitória (ES) como destino turístico depois que a Vale do Rio Doce construiu o terminal de Tubarão em 1966.

para enriquecer o debate sobre a viabilidade do porto de Torres como saída logística global para o Estado, há na biblioteca da extinta Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), em Porto Alegre, uma farta documentação sobre os esforços governamentais para construir a chamada Ligação de Porto Alegre ao Mar.

O pioneiro foi o almirante Joaquim Marques Lisboa (1807-1897), marquês de Tamandaré. Gaúcho de Rio Grande, ele admitiu em 1861 a possibilidade de se construir uma ligação aquática Porto Alegre-Torres. Daí em diante, houve diferentes projetos em 1887, 1910, 1918-1922, 1928-1936 e 1959/1960 (governo Brizola), quando o rodoviarismo se apossava das cargas.

Só pensando em encurtar o caminho dos navios em 500 quilômetros, os técnicos apontaram diversos locais para os terminais portuários – de Mostardas a Torres, passando por Pinhal e Quintão. Para chegar lá, sugeriram o aproveitamento combinado de lagoas e rios, sem nunca dispensar a construção de canais navegáveis permanentes – coisa que nem ocorreu a Garibaldi, porque sua jornada clandestina era somente de ida até Laguna. Jornalista, autor do livro Navegando pelo Rio Grande.

* Publicado originalmente no Jornal do Commercio.

Geraldo Hasse é jornalista

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