Volte por lá você também. Agora!

O futebol realmente é uma caixinha de surpresas. Não apenas pelas sensações que proporciona dentro dos gramados, mas também pelas situações que nos faz viver e reviver fora dele, mesmo que não seja de maneira pensada.

Numa destas noites de jogo pela televisão, e é claro que o mesmo aparece quase sempre com churrasco e algumas cervejinhas, cheguei um pouco mais tarde em casa. O silêncio era ensurdecedor e ao mesmo tempo perigoso: qualquer passo em falso poderia ser fatal para o sono da minha família.

Um degrau por vez e logo eu estava ali, bem em frente ao meu quarto. Tentei ser o mais discreto e sucinto possível, quando manuseava o trinque da porta. Perturbá-los naquele instante poderia significar mais uma “madrugada adentro”, pela energia constante e contagiante dos meus filhos.

Realmente eu não tinha noção de que portava uma coragem fora do comum: “invadir” um quarto, com dois filhos pequenos e uma esposa dormindo, não é para qualquer um. Mesmo com todo o sucesso, principalmente pelo horário em que acontecia, eu sobrei. Minha própria cama já não era mais minha. Com apenas uma nesga de luz, não consegui decifrar o que era esposa e filhos. Um gostoso emaranhado de travesseiros, cobertores, braços e pernas para todos os lados.

Sem hesitar ou acordar os dorminhocos fui para o dormitório ao lado de um dos meus filhos e me deitei, naquela pequenina cama de “lembranças fabulosas”.

Confesso que já não estava mais acostumado. Utilizamos aquele quartinho apenas para algumas brincadeiras, abrir e fechar a janela e para “conversas pontuais” (o famoso castigo). Todavia, eu estava entrando num passado não muito longínquo. Por quantas vezes, ali, pude fazer o meu filho dormir? Sim, aquele mesmo gigante que estava ocupando boa parte do meu espaço. Quantas histórias e estórias o contei para nanar? Quantas palavras de carinho? Quantos abraços intermináveis? Quantos pedidos para que eu não o deixasse dormir sozinho? Quantos afagos e um sentimento, mútuo, de proteção? Quantas madrugadas acordado, esperando que ele dormisse? Quantas dúvidas se eu estaria sendo um bom pai? Quantas noites que tentei voltar para o meu quarto e fui interrompido por uma voz engasgada e de medo, que dizia: “papai, fique aqui comigo”? Quantos; papai, eu te amo! Ou, filho sabia que o papai te ama? Quantos choramingos e até mesmo alguns desentendimentos de estarmos extrapolando o horário de dormir? Quantos carneirinhos contados e piadas sem nexo? Quantos ensinamentos e aprendizados?

Ah, o tempo… Ele vem atropelando tudo e a todos. Parece que foi ontem que acordava torto, com sono e completamente cansado da péssima noite que tinha passado. Ah, o tempo… Como eu gostaria de voltar alguns anos e passar mais alguns instantes, ou melhor, algumas noites ruins, exatamente como as que fora passada.

Nunca duvide pai ou filho, daquele velho sábio da esquina da sua casa, em que sempre lhe diz: “aproveite, pois o tempo passa muito rápido, meu garoto”. Ele tem razão.

Viva e esteja sempre ao lado daqueles que você ama e que amam você. Os admire ainda mais. O tempo nunca foi muito amigo e depois viveremos somente de lembranças. Não se detenha: volte atrás e se permita algo que relembre os seus filhos, os seus pais. Uma simples atitude pode lhe garantir alguns sorrisos, ótimas emoções. Não se considere tolo, pelo fato de buscar estas recordações. Uma pessoa que esconde este sentimento pode permanecer infeliz, pelo resto de sua vida.

Retorne naquele quarto, deite-se e relembre…

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