A LÓGICA DO “ESPELHO NEGRO”

Nos dias que correm na terra brasileira, a lógica dos que defendem com unhas, dentes e tuitadas o “governo” atual é: se o que dizem é contra o governo, então é mentira; se o governo disse, então é verdade. É a lógica do “espelho negro”. Basta contradizer o que dizem os críticos (mesmo que a crítica seja de uma clareza solar) que “tudo ficará bem”, como aqueles paninhos que algumas crianças cheiram e se acalmam de suas agitações infantis.

Essa introdução lúdica é necessária, pois se está, por óbvio, argumentando com pessoas que têm os pés (e as mãos) firmes no solo de suas convicções. Vejamos.

Abraham Weintraub, o ministro da educação, mais um dos discípulos daquele que se autoproclama filósofo desde as longínquas terras da Virgínia, com seus ursos e aflições (a quem chamo ‘carinhosamente’ de o Rasputín do laranjal), decidiu, esta semana, a princípio, cortar um terço dos orçamentos de três grandes universidades públicas brasileiras (UnB, UFBA e UFF), corte depois estendido a todas as demais universidades federais e institutos federais, sob o pretexto de que as tais instituições promoviam “balbúrdia”, e que “não apresentavam resultados acadêmicos satisfatórios”.

Por este singelo “diagnóstico” promovido pelo ministro, se vê que estamos diante de quem desconhece por completo a envergadura da pasta que titulariza: das instituições federais, que concentram apenas vinte por cento do contingente de estudantes de ensino superior do país (número que tende a aumentar dada a proliferação incessante de “uniesquinas”), e produzem mais de oitenta por cento da produção científica nacional.

A vinda à tona de um histórico acadêmico abaixo da linha do medíocre (acompanhada de um vídeo de gosto duvidoso com uma versão chorosa e rastaquera como tentativa de justificar o desempenho pífio) demonstra que estamos diante de alguém ressentido com a academia (apesar de viver, até pouco antes de sua nomeação, de proventos oriundos da UNESP), e que teve, graças à conjuntura desse Brasil ao avesso do avesso que estamos vivendo, onde o pior manda em todos, a oportunidade de uma vida: ocupar o cargo máximo de um dos principais ministérios, e poder tocar, a partir dali, sua desforra à academia, mirando a esquerda que tanto odeia.

Vejam bem: eu c… pra esquerda. Não sou e nunca fui de esquerda. Mas também nunca fui dessa direita patética, retrógrada, xucra e ignorante, que tenta se vender de “liberal” (metendo a mão na regulação dos preços dos combustíveis e gerando um prejuízo de R$ 30 bilhões à Petrobras em apenas um dia para agradar os caminhoneiros). Eu digo e repito: me repugna a ignorância, a burrice. Quando estas tentam se travestir do que não são, a emenda sai ainda pior que o soneto.

Meu ponto é: o argumento de realocação (prospectiva) dos recursos do ensino superior para o básico e o fundamental não passa de falácia, e das mais vagabundas. Não que o ensino básico e o fundamental não mereçam massivos investimentos; longe disso. É que estes que estão aí estão usando de modo oportunista uma causa nobre para tentar enfiar goela abaixo uma reforma da previdência amarga que não tiveram a capacidade de vender por meio da tradicional articulação política.

O argumento de investir nas séries iniciais só veio a posteriori, quando se concluiu que os dois primeiros argumentos apresentados (quais sejam, “balbúrdia” e “não apresentavam resultados acadêmicos satisfatórios”) são aptos a conduzir o ministro à condenação pela Lei de Improbidade Administrativa, nos termos do art. 11, que passo a reproduzir, grifando trechos aplicáveis ao caso:

“Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente: I – praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na regra de competência;”.

Ora, pretender atingir o que se reputa ser “doutrinação de esquerda” (afinal, a caça do momento é a estas bruxas, os tais “comunistas” que o governo vê por todos os lados) prejudicando TODAS as instituições de ensino superior federais (universidades e institutos) fere a imparcialidade (afinal, o ministro e o governo integram o matiz antípoda do espectro ideológico, não?), sendo, portanto, ato de improbidade administrativa, apenado na lei com, na dicção do artigo 12, inciso III (que também reproduzo):

“Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na legislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes cominações, que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a gravidade do fato: (…) III – na hipótese do art. 11, ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem vezes o valor da remuneração percebida pelo agente e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos”.

Barra pesada, Sr. Weintraub: melhor não tirar a camisa.

Em suma: enquanto essa lógica rasteira do “espelho negro” imperar, o governo Bolsonaro não dá sequer o primeiro passo para fora do atoleiro moral e político em que se afunda a cada dia. Ou, lido pelos bolsonaristas, a partir de sua peculiar visão da realidade: está tudo perfeito, dando certinho, esse é o plano pra “mudar tudo isso que tá aí, tá ok?”, e quem discorda que “vá pra Cuba ou pra Venezuela!”.

Só cheirando o paninho do conforto para eles acalmarem os ânimos!

Abraham Weintraub

Obrigado por participar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.