Sobre cortes nas federais e neblinas

Charles Dickens é aquele escritor cuja leitura não só deveria ser obrigatória, como a negativa em lê-lo deveria resultar em algum tipo de punição. Em sua novela, “Bleak House”, ele assim escreve:

“Fog everywhere. Fog up the river where it flows among green airs and meadows; fog down the river, where it rolls defiled among the tiers of shipping, and the waterside pollutions of a great (and dirty) city…. Chance people on the bridges peeping over the parapets into a nether sky of fog, with fog all round them, as if they were up in a balloon and hanging in the misty clouds.”

A situação das Universidades Federais, no que diz respeito ao corte de 30% em seu orçamento linear, algo muito bem-vindo, diga-se, pois concordo que com educação não se brinca, logo vamos parar de chicanas no Ensino Superior e focar no Ensino Básico, convido a quem interessar a ver como o substantivo Fog (neblina em português) é empregado por Dickens para justificar que há problemas em toda a cidade e que até mesmo as nuvens ficam ainda mais densas pelo Fog.

O que tem sido chamado de “chantagem” e “ameaça”, como uma forma de pressão do Governo para a aprovação da Reforma da Previdência, nas palavras do reitor Pedro Hallal, são confirmadas pelo seu próprio argumento: sim, o Governo está realizando um contingenciamento de despesas; sim, se a Reforma da Previdência não for aprovado, não vão haver cortes, senão a falência da máquina pública.

Note o leitor que sou de matriz conservadora e entendo que a Universidade não deveria, sequer, ser gratuita; enquanto há liberação de verbas para fomentar bolsa de estudo em projeto de pesquisa sobre a influência do Tinder em Rio Grande, a Fundação Smithsonian está despejando milhares de dólares para pesquisar as espécies de formigas na fauna brasileira; é uma diferença de grandezas, claro, como dizemos no futebol “agora fala tu boleiro, preferes ver uma pelada entre Brasil de Pelotas e Londrina ou Manchester City e Tottenham?”.

Há um misto de indignação por parte dos alunos, plenamente justificável, haja vista que os Reitores, desde que passaram a ser eleitos pelo voto da comunidade acadêmica, deixaram de se preocupar com as gerações no porvir, dando lugar à próxima gestão ou a outros cargos que possam aspirar. Aproveito, aqui, para retomar a citação de Dickens. Tudo está nebuloso, não é possível ver um palmo à frente do nariz na indignação da comunidade acadêmica, haja vista que cortes, ainda mais drásticos foram realizados pela gestão de Dilma Roussef e, sem surpresas, não vi fotos da Presidente sendo queimadas e nem mesmo notas afirmando que está havendo chantagem e covardia.

O que fixo como covarde é não munir a comunidade acadêmica de informações suficientes; tudo fica restrito à reforma da Previdência, a qual, pela sua manifestação anterior, o Reitor da UFPel parece estar, s.m.j., peremptoriamente contra. Há nuvens bastante densas, abastecidas pela umidade que paira sobre nosso microclima que não me permitem decifrar se há um pingo de decência nas afirmações que estão vaticinadas pela imprensa.

Se os argumentos tecidos pelos Reitores das Universidades Federais permanecerem rasos, afianço-vos que eles próprias serão as suas próprias nêmesis. Será um 7×1 da População contra os Reitores; tornar-se-ão inimigos de quem postula pela solução dos problemas da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, pela escassez de recursos nos postos de saúde, pois, justo, há 9 milhões esperados para a Reforma do Grande Hotel, o que será celebrado com pompas e direito a plateia VIP. Por ora, ficamos nisto. Tudo ainda está por demais nebuloso.

© Gustavo Jaccottet é advogado.

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