Muito além do jardim…

Adoro Peter Sellers, não quero criar uma inimizade com o Rubens ao compará-lo com Charles Chaplin, mas suas interpretações são icônicas; minha predileta é do personagem Chance Gardener, em “Muito Além do Jardim”, filme baseado na Novela “Being There” de Jerzy Kozinski.

Chance é um cidadão abaixo de todas as médias. Trabalhou durante toda a sua vida como jardineiro em uma casa em Washington, nunca havia saído de lá, até que o seu patrão vem a falecer e os advogados responsáveis pela liquidação do patrimônio dizem que ele tem que sair de casa. Repito: Chance era abaixo da média, literalmente “ignorante”, não burro, e nunca tinha saído de casa.

Seu mundo era restrito ao Jardim e ao que via na Televisão. Quando sai de casa, caminhando pelas ruas do Distrito de Colúmbia, passa por uma loja que anunciava um televisor e uma filmadora e Chance se surpreende ao ver a si mesmo na televisão, quando dá um passo em falso e um carro, que saía da vaga de estacionamento, causa-lhe uma lesão na perna.

Sem saber, Chance é levado para uma mansão de um dos cidadãos mais influentes da política americana.

Numa das passagens do filme, ele é apresentado ao Presidente, que começa a indagar Chance sobre as suas ideias para a sua gestão, haja vista que estava preocupado com o crescimento econômico do País, que aparentemente estava passando por um princípio de recessão:

Presidente: Sr. Gardner, o Sr. concorda com o Ben, ou o Sr. acha que há outras forma de se incentivar o crescimento?

Chance: Enquanto as raízes não precisaram ser cortadas, tudo estará bem. E, assim, tudo estará indo bem no Jardim.

Presidente: Sim, no Jardim.

Chance: Sim. No Jardim há quatro estações. Primeiro vem a primavera para depois vir o verão, mas depois há o outono e o inverno. E depois nós temos a primavera e de novo o verão.

Presidente: Primavera e verão.

Chance: Sim.

Presidente: Depois outono e inverno.

Chance: Sim.

Ben: Eu vejo que o nosso amigo bastante perspicaz quer dizer que nós estamos abertos às mudanças inesperadas e esperadas da natureza, mas que queremos que a nossa economia volte à sua melhor estação.

Chance: Sim! Ela volta a crescer na primaversa!

Ben: Hmm!

Chance: Hmm!

Presidente: Hm. Bem, Sr. Gardner, eu preciso admitir que essas são as palavras mais realistas e otimistas que escuto em muitos anos. … Eu admiro o seu bom senso. É precisamente isto que falta no Capitólio.

Não é necessário sequer comentar algo além da passagem que citei; minha intenção é mostrar que, assim como o mundo de Chance Gardner, quando muito além do jardim em que trabalhava e da casa em que vivia, devemos estar preparados para os momentos de adversidade.

Será que a comunidade Pelotense, indignada com os cortes anunciados pelo Governo, não carece de um choque de realidade, passando a olhar para nossos próprios umbigos. Vejam a situação da Santa Casa de Misericórdia; alguns esbravejam que, por detrás dos cortes, há interesses privados, haja vista que o MEC otimizou o credenciamento de Instituições de Ensino Privadas ou pela pressão para que a Reforma da Previdência seja aprovada até Julho, pois Paulo Guedes já foi gestor de fundos de pensão.

Pelotas está um caos. Não há dinheiro na Prefeitura e nem bom senso na Câmara de Vereadores. Temos que arrumar a casa e a Universidade Federal não haverá de fechar as suas portas. Devemos ver o mundo “muito além do nosso jardim”, não custando lembrar que os alunos da própria UFPel publicaram uma foto que viralizou nacionalmente em que a palavra UNIVERSIDADE está escrita sem a letra “R”, UNIVE_SIDADE. Há algo de errado, muito errado, em nossa cidade, e afianço que esse problema não está no colo dos conservadores.

© Gustavo Jaccottet é advogado.

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1 thought on “Muito além do jardim…

  1. Ótimo texto, Gustavo!
    É uma pena que temas de tamanha relevância sejam tratados de forma tão rasa por uns e por outros. De um lado vemos o governo, fazendo “malvadeza” com o funcionalismo para diminuir a resistência à reforma da previdência (uma sacada óbvia); e de outro os reitores, com seus argumentos simplistas e seus números inflacionados, tentando defender o indefensável.
    Quando se olha para o Relatório de Gestão divulgado pela UFPel na sua página institucional (http://portal.ufpel.edu.br/wp-content/uploads/Relat%C3%B3rio-de-Gest%C3%A3o-2018_v02-final.pdf), constata-se que o custo corrente de cada aluno (em números oficiais, p. 98) tem se mantido em torno de R$ 30.000,00/ano, SEM CONTAR AS DESPESAS DE INVESTIMENTO. Custo de aluno “europeu”. Constata-se também que o custo corrente (mesmo incluindo os 35% de despesas do Hospital Universitário), de 2014 a 2018, nunca passou de R$ 538.614.544,55 (p. 96), valor correspondente a 67,32% do orçamento anual de 800 milhões. Como a universidade sempre gastou menos de 70% do seu orçamento, como justificar agora a necessidade de fechar as portas, se o valor contingenciado é de apenas 70%? Pirraça?
    De outra parte, também não se sustenta a narrativa construída pelo Reitor, de que a universidade tem hoje 20.000 estudantes, já que a própria instituição relata em documento oficial a existência de apenas 11.130 alunos em tempo integral (p. 98), ou 18.104 alunos-equivalentes, já que os da pós-graduação e do EAD contam um pouco mais.
    É uma pena que um tema de tamanha importância esteja sendo usado para amedrontar a uns e a outros, numa espécie de “cabo de guerra” onde quem perde é a verdade, e quem paga é o contribuinte… infelizmente.

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