O estranho amor ao ódio

Sob os aplausos de Moro, Mourão, Major Olímpio, Marcel Van Hatten e congêneres, Bolsonaro assinou um decreto presidencial que, virtualmente, liberou o porte de armas para um contingente ainda indeterminado de pessoas (mas apenas considerando os advogados, entre os quais me incluo, deve certamente atingir a casa dos milhões).

Os presentes faziam a famosa “arminha com a mão”, sinal distintivo da “genialidade” que impera nesse 2019 de sucessivas catástrofes.

Moro se adiantou a afirmar que não se tratava de medida de segurança pública, o que deixa o leitor menos desavisado com a pulga atrás da orelha: seria uma medida de qual natureza?

O “liberalismo” que essa direita bizarra prega sempre fez a ode ao porte, não apenas à posse.

Aqueles que aprovam a medida de Bolsonaro e que amam os EUA, podem pesquisar (ou fazer o teste) nas ruas de NY numa eventual próxima viagem: cidadãos não têm porte por aquelas bandas.

Mas aquele não é o modelo de sociedade almejado? Estendo a pergunta: há americanos andando armados nas ruas da Disney? Se sentiriam seguros se seus filhos estivessem em um ambiente cheio de cidadãos armados?

Há uma semana, o legislativo da Flórida aprovou uma lei que permite que professores portem armas na sala de aula, sob o argumento de que o objetivo seria evitar “ataques de atiradores em escolas”. Críticos defendem que o ambiente de sala de aula deveria ser livre de armas, e dizem que nova lei é a verdadeira receita para a tragédia. Sublime ironia: justamente o porte de armas conduz à necessidade de que se porte mais armas, para combater àquelas, em perversa lógica na qual a violência demandaria mais violência…

Mas, por conhecer bem demais o argumento dos interlocutores, vislumbro falácias pseudo-liberais, de que o direito de portar uma arma é sagrado, fundamental, e todo esse trololó de quem acha que o mundo é como preconizam no Manhattan Connection, sendo seu rei Diogo Mainardi e seu papa Ricardo Amorim. Então, não entrarei além do que já entrei no mérito dessa questão. Cada um pode opinar o que quiser, mas a verdade é que o decreto de Bolsonaro extrapola os limites legais e constitucionais e provavelmente será objeto de revisão pelo Congresso, ou, no limite, pelo Judiciário. Aguardemos.

O que salta à vista é: mais uma medida tendente à violência, ao desassossego, ao conflito. Que estranho amor esse pela violência.

Não, eu não defendo de modo algum que os bandidos apenas portem armas, mas estes o fazem justamente por serem bandidos.

Será que aumentar a quantidade de pessoas armadas, potencialmente aptas a usar suas armas, atingindo terceiros no afã de se defender, ou mesmo agindo para “fazer justiça com as próprias mãos”, nos tornará uma sociedade melhor? Será mesmo esse o caminho? Não posso crer.

Princípios comezinhos de lógica só podem conduzir à conclusão de que mais armas significarão mais eventos com uso de arma, e suas nefastas consequências. Ou estaria o governo intencionalmente nos armando, em paralelo à descrença que ajudaram a instalar no sistema democrático, e isso, junto à desmoralização da cúpula do Exército promovida pelo Rasputín do laranjal, seja parte de algum plano do qual ainda não estamos a par?  Haveria alguma “bomba” a caminho?

Dia desses, lembrei de Peter Sellers e me veio à mente aquela que julgo ser a sua melhor atuação, Dr. Fantástico (ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba), de 1964 (que ironia), dirigido por Stanley Kubrick. A trama tem como pano de fundo a Guerra Fria (a mesma que o Rasputín da Virgínia e os bolsonaristas crêem que não acabou), contrapondo americanos e os supostamente ainda presentes comunistas, e gira em torno de um militar americano que decide, sem provas (o argumento seria o de que os socialistas estariam “envenenando a água do mundo”), lançar um ataque à União Soviética.

O evolver dos acontecimentos gira em torno dos debates de membros da cúpula do governo e do Exército americanos favoráveis e contrários ao ataque nuclear, que redundaria, em última análise, no fim do mundo como o conhecemos, pela hecatombe desencadeada do choque atômico das potências.

Dos três papéis que Sellers desempenha no longa (cujo elenco estelar conta com James Earl Jones e George C. Scott), o de maior destaque, sem dúvidas, é o cientista alemão “ex-nazista”, que auxiliou a desenvolver a bomba, cujo braço direito parece ter vida própria, lutando contra o dono para fazer o infame “Heil, Hitler!”.

A atuação de Sellers como uma espécie de guru do presidente (também interpretado por ele), que ao fim e ao cabo conduz ao apocalipse mostra o perigo de concentrar na mão de poucos (e lunáticos despreparados) os destinos de todos. Uma reflexão de certa forma amargamente tardia para o Brasil, diante dos eventos em curso.

Até quando assistiremos inertes os atos preparatórios para o presidente “apertar o botão vermelho”?

Algo me diz que cada vez menos pessoas compartilham do estranho amor desse governo à cultura do ódio sob o pretenso argumento do liberalismo, que nesse caso se sabe mais falso do que as intenções daqueles que dizem querer “menos Estado” postulando ocupar (e ocupando) cargos eletivos… no Estado!

É algo complexo, que certamente não se consegue explicar com moedas ou “chocolatinhos”.

O the end do filme Dr. Fantástico

Artigos refletem a opinião exclusiva de seu autor.

1 thought on “O estranho amor ao ódio

  1. Lembrando ao articulista que só os advogados q são agentes públicos estão incluídos no decreto…

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