Dan Barbier conta sua demissão da Biblioteca Pública de Pelotas

Dan Barbier, no facebook |

“Para preservar o bem-estar da nossa Presidente, o Conselho Diretor da Bibliotheca Pública Pelotense decidiu por unanimidade te dispensar das tuas funções. Ela não anda nada bem, chora todo tempo!”.

Essa foi a justificativa usada para me demitirem da Bibliotheca, justo no ano em que eu completei dez anos de Casa, justo no dia histórico que o STF decidiu pela criminalização da homofobia no Brasil. Não pude comemorar nem uma coisa, nem outra!

Obviamente a história que eu vou contar diz respeito à mim, mas também relata como tem funcionado a perseguição política e a tortura psicológica nos dias de hoje no Brasil.

Eu quero conta-la.

Minha relação com a BPP começou em janeiro de 2009. Fazia poucos dias que ela tinha sido entregue à comunidade. Seu restauro tinha sido concluído e tudo estava por fazer. Por fora, o prédio imponente. Por dentro, uma bagunça sem fim.

Livros amontoados. Estantes pra lá e pra cá. Pó e muitas coisas perdidas por ali. A equipe técnica resumia-se em uma bibliotecária e, entre os demais colaboradores, poucos tinham afinidades com o acervo e sua gestão.

Minha chegada se deu junto a uma leva de estagiários, que ajudariam a organizar aquela bagunça. E desde então essa tem sido minha função lá dentro.

Separar os livros por temáticas e possíveis serviços ofertados aos usuários foi só o início do trabalho. A Biblioteca precisava mais que livros, precisava de vida.

Assim, remontamos a Hora do Faz de Conta e criamos as visitas guiadas. Depois, vieram as exposições e a organização dos catálogos. O Museu da Bibliotheca, um dos 20 mais antigos do Brasil, foi salvo e modernizado, inclusive se transformou na minha dissertação de mestrado.

Fizemos convênios que colocaram a BPP no centro do circuito acadêmico, colegial, turístico, artístico e cultural. Avançamos em qualidade de métodos de preservação e de acesso à informação. Criamos um site e investimos desde cedo nas redes sociais.

Em poucos anos o número de associados e parceiros cresceu vertiginosamente. Com o fechamento do Theatro Sete de Abril e de outros espaços culturais, a BPP se tornou palco de mais de uma centena de espetáculos. Chegamos a promover mais de cem espetáculos ao ano!!!

Ousamos! Fundamos atividades voltadas ao público com deficiência: surgia aí o acervo em audiolivro e em Braille, além do projeto Amigos da Lolo. Surgia também o projeto Caminhos do Saber, uma Van que circularia pela cidade espalhando literatura. Investimos em digitalização: foram, desde o surgimento do programa, em 2011, mais de 40 mil docs digitalizados, afora todo acervo fotográfico.

Abraçamos o Festival Internacional de Música, a Semana dos Museus, a Semana de Pelotas, o Dia do Patrimônio, a Feira do Livro, a Feira da Cara Preta e a Semana da Consciência Negra, além de uma enormidade de entidades e instituições sem sede própria. Promovemos Oficinas de Teatro e Oficinas de Dança durante todo o ano. Mantivemos um Grupo Literário e rodas de conversa com autores locais periodicamente.

Se tudo isso ainda não fosse suficiente, no final do ano passado entreguei à direção da Casa um plano contendo mais de trinta projetos novos. Alguns, inclusive, já em curso.

Essa foi parte da minha marca na história da Bibliotheca durante esses últimos dez anos.

E o que teria mudado, então?

Ano passado, eu tendo assumido a presidência da Associação Amigos do Theatro Sete de Abril, promovemos um abraço ao Sete. A imprensa apareceu e verdades sobre o restauro foram ditas. Com a repercussão, naquele momento, o Secretário de Cultura do Município ligou para a Presidente da Bibliotheca e cobrou dela uma postura mais firme em relação a mim. Afinal, eu era um funcionário dela, logo passível de ser controlado pela força da caneta!

Desde então coisas estranhas foram acontecendo.

Aos poucos, conforme minha atuação na Amasete e também na Organização da Parada da Diversidade de Pelotas ia se desenvolvendo, o clima dentro da BPP ia ficando cada vez mais pesado. O auge se deu com minha eleição para o Conselho Municipal de Cultura, em janeiro deste ano. A resposta dentro da BPP foi dura: como sinal autoritário de poder, retiraram de mim praticamente todas as atribuições profissionais que eu desempenhava, me esvaziaram de tarefas e até chegaram a solicitar meus e-mails para conferência. Por óbvio, não me dei por vencido.

Se através da Amasete eu exigia transparência e celeridade no processo do restauro do Theatro e se através da minha participação no grupo organizador da Parada da Diversidade eu exigia políticas públicas para a população LGBT, através do Conselho de Cultura comecei a atuar em questões pontuais ligadas à gestão pública de cultura em Pelotas: carnaval, editais de fomentos, PAC, equipamentos culturais e… a cereja do bolo… a legislação protetiva do nosso patrimônio. Em outras palavras, Havan.

Com o caso Havan a coisa ficou mais seria. Minha imagem foi usada de forma muito baixa. Mentiras e mais mentiras foram ditas. A Prefeitura agiu e se a BPP já estava promovendo uma série de medidas que em muito lembram severos métodos de tortura psicológica e moral, com cenas de humilhação inclusive, agora, de forma escrachada, vinha a censura nua e crua: para eu não perder o emprego, o silêncio pelo período de um mês! Essa foi a proposta indecente que me fizeram.

E assim eu o fiz!

Contudo, enquanto eu penava sentado numa cadeira esperando as horas passarem ao longo do dia, dois eventos acabaram inevitavelmente me mobilizando: a retirada do Samba do Mercado e a perda de mais de 40 mil documentos digitalizados do servidor da BPP. Mesmo censurado, acabei escrevendo um artigo sobre o caso do Mercado Público e atuando diretamente, à revelia da direção da BPP, para tentar recuperar os 40 mil documentos digitalizados ao longo de 8 anos de trabalho. Os ânimos se acirraram!

Como resultado, nessa semana, a Presidente pediu licença do cargo transferindo-o para o Vice-presidente que, convocado uma minoria do Conselho Diretor da BPP, sem avisar os demais conselheiros, decidiram pela minha demissão. Ao que eu perguntei sobre em que eu havia incorrido em erro, a resposta foi simples e direta: “não foi por incompetência, nem por falta de ética, ou outro motivo. Tenho dúvidas, inclusive, se é justo o que estão fazendo contigo! Mas tem que ser feito, infelizmente!”

Não tenham dúvidas: eu ainda estou sem chão devido a forma perversa com que tudo aconteceu e profundamente decepcionado com a covardia, acanhamento e submissão da Bibliotheca diante de tudo isso. Continuo como Cândido de Voltaire acreditando que as coisas tendem a melhorar no final e espero, firmemente, que esse momento tenebroso da nossa história passe logo.

Fui forjado acreditando que um Outro Mundo é possível e é por esse Mundo que eu continuarei lutando… dentro ou fora da BPP!

1 thought on “Dan Barbier conta sua demissão da Biblioteca Pública de Pelotas

  1. Também fui demitida em uma situação semelhante. A diferença é que fiz um processo seletivo em que preenchi todos os pré requisito, inclusive com gastos pois paguei todos os exames,fui classificada em segundo lugar. Para minha surpresa ,estava trabalhando quando recebi um telefonema com o seguinte teor” você está demitida,hoje é seu último dia de trabatrabalho”perdi o chão.

Obrigado por participar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.