O que move o mundo

O mundo é movido a paixões, embora os humanos se digam “racionais”. Basta olhar nosso povo, cuja passionalidade é evidente. O assunto do momento são as paixões contra e a favor da Lava Jato. Será possível examinarmos o assunto de modo racional, pensando no país, sem o olhar apaixonado da “luta do bem contra o mal!?

Até o ano passado a Lava Jato havia recuperado 13,8 bilhões de reais para os cofres públicos, resultado na prisão de políticos de inúmeros partidos e de mega empresários, das maiores corporações brasileiras. Mas para Jessé Souza, que escreveu o livro “A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato”, ela é apenas um instrumento da “elite”. Prender os maiores burgueses do país seria de interesse da burguesia? E recuperar bilhões para os cofres públicos, não interessa ao país?

Os áudios entre Moro e Dallagnol, agora, divulgados pelo site The Intercept Brasil, repercutem na internet como “prova” da tese conspiratória. Ali se vê trocas de ideias entre o juiz e o procurador, onde quando perguntado sobre se tomará uma decisão rapidamente o juiz diz que não terá tempo, e que só condenará se as provas forem robustas. Num dado momento o juiz pergunta se não é muito tempo sem operações. Essa passagem dá ideia de uma afinidade, que não deveria fazer parte das relações institucionais entre magistrado e procurador.

Há um áudio muito mais escandaloso do que esse, que é o de uma conversa entre Gilmar Mendes e Aécio Neves, em que ambos tramam abertamente falar com outras pessoas para influenciar decisões judiciais. Porque o áudio entre Gilmar Mendes e Aécio, totalmente explicito e que denota em si mesmo um ato de corrupção, não teve a mesma repercussão? Porque não houve interesse político, não afetava diretamente os defensores de Lula, nem os de Bolsonaro.

Nas repercussões nas redes sociais sobre as conversas entre Moro e Dallagnol não está presente uma visão “republicana” do país, nem entre os que consideram as conversas como prova de conspiração, nem entre os que dizem que elas nada significam. Pois é de fato estranho ao interesse republicano a proximidade entre juízes e procuradores, como seria estranha entre juízes e advogados de defesa. Mas conteúdos como dizer que precisa de tempo para julgar e que só se condena com provas robustas são falas republicanas, seja via Telegram, nos corredores ou num gabinete, pois advogados e procuradores conversam com os juízes sobre processos.

O surreal de toda essa situação é Gilmar Mendes se manifestar dizendo que “provas obtidas ilegalmente podem ser usadas”, se referindo aos vazamentos sobre Moro e ignorando os áudios escandalosos sobre ele próprio. Gilmar Mendes sabe o que move o mundo e que ele está livre apenas porque não está no centro das paixões.

Montserrat Martins é médico psiquiatra, autor de Em busca da Alma do Brasil

Facebook do autor | E-mail: montserrat@tjrs.jus.br

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