O ato de escrever

Depois do advento das plataformas digitais, escrever se tornou uma laboração até mesmo excêntrica, uma vez que a produção e a difusão hoje pertencem a todos, sem distinções.

Não sei contigo. Comigo escrever é como se fosse um compromisso que a pessoa assume com ela mesma, com sua intimidade.

Além disso, exige esforço, coisa que a boca, pela própria natureza, desconhece.

Também um tipo de penitência, porque, dizia Borges com propriedade, a gente escreve para o esquecimento.

Eu mesmo tenho toda a obra de Borges e não li um quarto.

Se escrever é uma penitência, ou seja, um masoquismo, arrisco o palpite de que é também uma prova qualquer de uma qualidade nossa, que tem a ver, acredito, com buscar dentro de si uma ponte que religue as coisas, que busque um sentido de ordem para o caos.

Há algo de solene em escrever, algo a ver ainda com o silêncio.

De repente, no meio da quebradeira, há momentos invulgares, tipo ondas de endorfinas em forma de cristal.

Outro dia, no youtube, vi uma entrevista da Clarice Lispector (foto). Em certo ponto, ela declarou: “Quando não estou escrevendo, estou morta. Agora, por exemplo, eu estou morta”.

Paulo Francis definiu Clarice como “a mulher insolúvel”.

A expressão facial da escritora, na entrevista, era mesmo de uma pessoa insolúvel. A face pétrea, o olhar entre o vazio e o profundo, como se estivesse sob o efeito de um feitiço.

Eu não chego aos pés da Clarice, mas acho que entendi o que ela quis dizer.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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