A causa LGBT deve uma medalha ao nosso Capitão Gay

Um dia alguém ainda vai condecorar o advogado pelotense José Antônio San Juan Cattaneo com uma medalha de honra ao mérito, por ter sido um cavaleiro local da causa LGBT, nem que seja pelo bom humor.

Há mais de 10 anos, ele deu a si mesmo o apelido de “Capitão Gay”, inspirado num personagem de Jô Soares da TV Globo. Aparecia nos lugares mais improváveis, de onde não só era corrido como escorraçado a laço, como aconteceu num desfile da Semana Farroupilha.

Conheci o Capitão Gay na juventude. Ele vivia com os pais numa casa da Dom Joaquim. Gostava de rádio amador, tinha um rádio-amador por onde se comunicava com os navegantes.

Eu me lembrei dele depois de publicar a notícia da primeira homenagem a uma prenda transsexual, ocorrida no município gaúcho de Mata, fato que, na linha do tempo, faz dele uma espécie de precursor.

Lembrei tb de uma crônica que escrevi há alguns anos, com a qual arremato esta postagem.

Capitães Gays

Há uma solitária serventia em quem faz piada com a sexualidade dos gaúchos: pelotenses, graças a Deus e à mídia do centro do país, não estamos mais sozinhos na ‘parada’. Gaúchos não nascidos em Pelotas, que pelos anos também nos interpelavam com gozações, há algum tempo sentem o aguilhão solidariamente, de mãos dadas, como era de se esperar de um povo orgulhoso feito o rio-grandense.

Agora que voltei a morar no Rio Grande do Sul, as piadas acabaram. Mas em Brasília, onde morei por quase 20 anos, fazer ‘piada de gaúcho’ é uma mania. Cariocas, paulistas, cearenses, obtusos de todos os quadrantes não podem viver sem elas.

Quando me perguntavam onde tinha nascido, sabia muito bem onde iriam dar. Um ligeiro desconforto pairava com a previsível reação do engraçadinho à resposta. Chato mesmo era ter de acolher com urbanidade o deboche desses interlocutores, aquela cara de quem acabou de ter um insight original. A frequência das piadas em meus ouvidos era tanta que me fez prestar maior atenção aos sorrisos de camelo daqueles chatos [que me falavam, por exemplo, do tal estádio gaúcho de futebol para cem mil pessoas, metade no colo]. Observando-os melhor, passei a enxergar mais coisas por trás do tremor de suas gengivas carentes de saliva.

Afinal, se é praxe ignorar o que não nos afeta, é provável que lá no fundo o chato dos gaúchos não apenas nos admire, mas nos ame, o que me leva a pensar que existem mais ‘capitães gays’ pelo Brasil afora do que concebemos, e nem todos nascidos no pampa.

Portanto, não se deve perder tempo tentando explicar a essas pessoas as motivações da ‘fama’ de Pelotas, ou melhor, do Rio Grande do Sul. Até porque, por essas bandas, não costumamos praticar a dança da garrafa, mas sim a da lança, na horizontal.

Quanto mais a mosca é mosca na teia, mais a aranha se reconhece em sua natureza. Logo, é inútil se incomodar. Provaria apenas que, além do fato de comungarmos do preconceito do torturador, possuímos vocação para caça. Mais produtivo é analisar a fome compulsiva dos ‘aranhas’.

No fundo, esses chatos são uns carentes. Querem apenas dividir conosco, seus ídolos, sua aflição. Nossa cumplicidade é para eles uma espécie de perdão. Gente como nós, habituada a vislumbrar no infinito do pampa as perspectivas humanas, não têm medo de ver graça na tal piada do estádio de futebol, o tal com troca de lugares no colo no intervalo. Sem demérito dos espectadores.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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