Só a paz é quente

O frio severo que temos enfrentado nos traz à memória a experiência da guerra, no sentido do sofrimento. De súbito, somos como que apropriados por imagens inconscientes, coisas, suponho, como a agonia de um roseiral, a hostilidade das pedras, o cintilo daqueles vidros quebrados sobre os muros, colocados ali para ferir.

Em documentários de guerra, acessíveis no Netflix, somos capazes de emular o âmago dos alemães e dos russos naquela medonha campanha de neve, com os soldados entrouxados até a raiz do cabelo, mirando por viseiras improvisadas. Estão conflagrados num conflito que, ao longo do percurso, mudou de inimigo, com os combatentes marchando contra a natureza.

Quando o Internacional abriu as portas do Gigantinho para abrigar moradores de rua, e logo o Grêmio ofereceu cobertores, somando-se ao esforço do rival por solidariedade aos cidadãos à margem, a reação positiva foi enorme, como provam amplas manifestações nas redes sociais. De repente, o calor humano despertou outros apoios à campanha pelo agasalho.

Por nossas bandas, até neve houve, segundo documentaram os meteorologistas. Uns floquinhos que a rigor não merecem a designação, mas ainda assim, tecnicamente, flocos de uma neve que, ao longo do caminho, terminou engolfada pela água da chuva, chegando até nós como vestígio de uma poesia submetida, sem perdão, à força da gravidade.

O frio é uma avareza do sentimento. Uma provação com que o abandono e a morte desafiam em nós o instinto de sobrevivência. Posso resumir, creio, numa recôndita memória: a recordação de botijas quentes preparadas por nossas mães. Botijas cor de telha que, à noite, elas metiam nas nossas camas para nos aquecer, tendo o cuidado extra de arrematar a proteção com uma dobra do cobertor por baixo dos nossos pés, para se assegurar de que o frio não nos alcançasse.

Frio não é mesmo coisa para sentir, apenas para lembrar. Rememorar que a vida vale a pena se podemos contar com o calor humano, naquele ponto em que dissolve as cercas que nos apartam em inevitáveis batalhas a que, infelizmente, somos incitados pela própria vida e pela natureza.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

Obrigado por participar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.