Brasília e a amizade

Estou passando uns dias em Brasília, a capital construída para a solidão do poder.

Isso de solidão foi no tempo em que não havia internet. Hoje os políticos estão cercados fisicamente pela imprensa, mas tb virtualmente pela sociedade inteira, fazendo pressão imediata.

Quando morei aqui, de 1992 a 2008, uma vez li na parede de um bar um poeminha que dizia assim: “Brasília, Brasil-Ilha, teus náufragos jamais te abandonarão”.

Estive naufragado por 16 anos, mas um dia a abandonei, como se algo pendente reclamasse uma resolução.

Nesses dias aqui, tenho reencontrado com gratidão o espírito da cidade, a variedade dos tipos brasileiros que a habitam, os sotaques manhosos e amistosos de mineiros e nordestinos, como o do barbeiro Geraldo, da Barbearia do Onofre, um baiano que te faz sentir num spa, com direito à conversação malemolente, terapêutica.

Ontem de noite fui a um bar chamado La Rubia, sobre a calçada, decorado como se fosse um inferninho. Cortinas rubras, globos de espelhos giratórios, La Rubia às vezes recebe shows de drag-queens, musicadas por um djay. Ali reencontrei dois amigos, Tereza e Rafael, colegas jornalistas de muitos anos.

As drags não deram o ar da sua graça, mas o papo preencheu a ânsia por exaltações.

Eu sou daqueles que acham um perigo voltar aos lugares aonde fomos felizes, porque, muitas vezes, somos dominados pela melancolia.

No tocante às pessoas, elas não se encontram mais aonde as deixamos. Estão trabalhando em outros lugares, terminaram casamentos, se casaram, agora têm filhos, algumas morreram, outras mudaram da cidade, como foi o meu caso, etc. Uma energia foi interrompida, deixando a vida em suspenso. De repente, a gente se sente preso no tempo errado, relembrando situações e pessoas, tentando inutilmente recomeçar de um ponto em que paramos.

Estar com Tereza e Rafael, contudo, amenizou minha estranheza. No fundo, os ciclos, as mudanças, fazem parte da vida.

Rimos a não poder mais, embalados pelas deliciosas margaritas do La Rubia, como se a distância entre hoje e o passado tivesse sido anulada e estivéssemos de novo nos anos 90, um grande pedaço dos 2000, com tempo para desperdiçar.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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