Bacurau, memória dos esquecidos

Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no interior de Pernambuco, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais no mapa.

Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, os habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados.

Ambientado em um futuro próximo, em Bacurau habitam diversas pessoas, cada um com seu jeito, porém o que está claro é o senso comum de coletividade e de união que existe entre eles.

Assim como as cidades que estão situadas no sertão no Brasil, Bacurau é uma localidade completamente isolada e esquecida pelos políticos, que só lembram de ir lá em época de eleição.

A comunidade local vive seus dias com tranquilidade e paz, apesar das dificuldades não resolvidas pela prefeitura. Porém, tudo começa a mudar quando um drone em forma de disco voador passa a sobrevoar a região e, logo em seguida, eventos estranhos e violentos começam a acontecer. O clima de suspense é constante desde o início e vai aumentando conforme as bizarrices acontecem.

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Bacurau é escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A dupla constrói uma instigante trama social sobre uma cidade que desaparece e é tomada por inesperados inimigos. Mal sabem eles que os moradores aprenderam a desaparecer quando necessário, transformando sua invisibilidade em força e estratégia, como visto no encontro com o prefeito até a tensa cena final.

A ameaça vem de um grupo de turistas americanos, sob a coordenação de um homem de origem alemã, que se divertem em um safári de caça humana.

Além dos muitos personagens em cena, vale destacar a atuação de dois gigantes: Sônia Braga, como a Doutora Domingas, e o alemão Udo Kier, aterrorizante ao interpretar Michael, um dos antagonistas do longa.

Ambicioso, o filme começa no espaço e apresenta em sua sequência de abertura o planeta Terra visto de fora ao som de Gal Costa cantando “Não Identificado”, em uma tomada típica de ficção científica.

Impecável, a direção acerta na montagem e na fotografia, que consegue passar o incômodo do calor do clima sertanejo. No ato final, vemos algumas das cenas mais violentas do cinema nacional recente. É um filme provocador e estranho, e que prende a atenção do começo ao fim.

A relação da história com o atual cenário brasileiro se faz ao mesmo tempo metafórica e evidente. Em tempos onde se questiona porque o povo brasileiro tem aceitado calado tamanha opressão, sem se unir e se revoltar, o filme propõe uma revolução simbólica da classe trabalhadora contra as classes dominantes.

Com uma qualidade técnica incrível, vemos cidadãos que foram esquecidos pelos governantes e ameaçados por forças externas em um Brasil ainda mais desigual e opressor. É um futuro sombrio, mas também uma história muito atual.

Bacurau é um filme único. Mistura gêneros e referências e fala da inquietação de uma comunidade afetada por uma série de mazelas, mas que preserva sua integridade na união e na resistência. Para quem gosta de entretenimento com qualidade e conteúdo.

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