‘Novelos de lã’. Por Neiff Satte Alam

Ontem fui a uma casa dessas que vendem tudo que é tipo de lãs junto com minha mãe para que esta tricotasse.

Tecer aquela metragem de fios e transformar em algo útil não é tarefa fácil. Iniciado o trabalho, um dos novelos foi surrupiado pelo gato e transformado em brinquedo (minha mãe não tem um gato, mas assim como estou inventando esta história, também estou inventando um necessário gato).

Ao utilizar aquele novelo, que estava enredado, verificou-se que estava também rompido em vários pontos. Calmamente e com competência os fios foram desenredados, emendados e tecidos.

O gato, que já nem existia de verdade, desapareceu da história, mas uma bela manta colorida surgiu de verdade.

Observando esta cena toda, inclusive o gato imaginário, transformei o novelo de lã em uma escola. Inicialmente uma estrutura, como o novelo de lãs, bem organizada, enroladinha, certinha, cujos fios representam um complexo de informações que só poderá se transformar em saber se mãos/mentes competentes souberem dar significado a estas informações. Antes, entretanto, teremos que desenredar e emendar os fios rompidos por “gatos” que, já não virtuais como os da história, teimam em desestruturar a Escola.

Desenredar os fios significa compreender o significado da Educação no desenvolvimento individual e do povo para que possa usufruir do conhecimento que vem sendo construído paulatinamente pelo homem, um conhecimento que só terá sentido se for disponibilizado a todos.

Emendar os fios é trabalho mais árduo, pois cada ruptura tem um significado: profissionalizar o ofício do professor para que este tenha a necessária autonomia no enfrentamento do dia a dia de sua profissão podendo, pelo uso da imaginação e criatividade, buscar diferentes e melhores caminhos no complexo trabalho de ensino/aprendizagem, é um desses nós a serem dados para emendar o fio; estabelecer uma lógica no sistema intra-escolar para que o professor não se constitua no parapeito dos conflitos sociais dentro da Escola, isto é, proporcionar à Escola um corpo de especialistas em Orientação Escolar, Psicopedagogia, Pedagogia, Supervisão Escolar e Administração Escolar para permitir ao Professor um trabalho com possibilidade real de sucesso, este nó tem que ser dado com responsabilidade e urgência; permitir que o professor tenha uma vida digna e com capacidade de usufruir do seu conhecimento também em proveito próprio, para tanto é necessária a chance de continuar a estudar para crescer profissionalmente, estes e outros pontos de rupturas do fio vão sendo emendados por quem entende do assunto, ao final poderemos tecer uma harmônica malha de conhecimento e o resultado será o esperado por todos que entregarem a tarefa aos que entendem do assunto.

Ah, esqueci de dizer que minha mãe é professora, embora o barulho das agulhas ao tricotar tenha substituído o ruído do giz ao escrever no quadro-negro, continua a transformar informação em conhecimento e este em sabedoria, pois um verdadeiro professor jamais deixará de desenredar e emendar os fios de ignorância (co)rompidos pelos reais ou virtuais gatos que circulam pelos porões das Escolas…

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