Dois Papas, um belo filme e uma lição de tolerância

Após ter sido bem votado na eleição que colocou o conservador cardeal alemão Joseph Ratzinger (Anthony Hopkins) à frente do Vaticano como Papa Bento XVI, o cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) decide aposentar-se. Mas, para isso, precisa da permissão do Papa, e então vai a Roma para convencê-lo.

Baseado em fatos reais, Dois Papas narra desde o conclave para decidir quem substituiria João Paulo II depois de sua morte em 2005, a renúncia de Bento XVI em 2013 devido a uma crise na Igreja Católica por conta dos escândalos com abusos sexuais de sacerdotes, e a consequente escolha de Francisco como seu sucessor.

Dirigido brilhantemente por Fernando Meirelles, o filme discute os bastidores da igreja a partir do encontro entre o atual e o futuro papa.

O excelente roteiro de Anthony McCarten explora a fundo a personalidade de cada um. Se desde o início já simpatizamos com o futuro Papa Francisco, o Papa Bento XVI é totalmente o seu oposto. Intelectual, autoritário e tradicional, a ausência de carisma no alemão não o tornou amado como seu antecessor, e ele tem consciência disso.

Além disso, as diferentes visões de Bento e Francisco sobre variados assuntos tornam o filme ainda mais cativante. Os dois não concordam em praticamente nada, mas se tratam com muito respeito.

Com protagonistas cheios de nuances e camadas, Bergoglio ganha mais destaque, com flashbacks que mostram dois momentos decisivos em sua vida.

O primeiro é quando decidiu abandonar a noiva para seguir sua vocação sacerdotal e o segundo é no momento em que viveu a maior crise moral de sua vida, ao suspender dois jesuítas de uma missão pastoral, o que deu pretexto para que militares da ditadura recém-instalada na Argentina os prendessem e torturassem. Vemos, ainda, sua proximidade com a comunidade carente de Buenos Aires, em ótimas sequências na periferia da capital argentina.

De certa forma, é fácil gostar do popular Bergoglio, afinal, ele é acessível, descontraído e apaixonado por futebol e tango. Tais características são captadas com extrema sensibilidade por Jonathan Pryce, que entrega um personagem adorável, fã de Beatles e capaz de assobiar “Dancing Queen”, do Abba, em plena eleição no Vaticano.

Sublimes e extremamente dedicados aos seus personagens, Anthony Hopkins e Jonathan Pryce contracenam em um duelo verbal lindo de se ver. Com diálogos inspirados, os veteranos se assemelham, inclusive fisicamente, às figuras reais que interpretam.

Com uma química impecável, divertem o público com a excentricidade de suas linguagens corporais, seus maneirismos e até mesmo suas personalidades, regadas de tradições. Impossível não se encantar com a cena na qual os dois comem pizza e tomam Fanta escondidos na “Sala das Lágrimas” da Capela Sistina.

O filme ainda se destaca pelo primor de sua produção, como na fotografia de César Charlone, habitual parceiro de Meirelles, assim como na belíssima direção de arte que retrata cenas no Vaticano e na Capela Sistina, além da trilha sonora com músicas como “Besame Mucho”, “Bella Ciao” e “Blackbird”.

Profundamente humano e surpreendentemente engraçado, Dois Papas é uma lição de tolerância. E de cinema.

Déborah Schmidt é formada em administração e servidora.

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