Pipas ao vento

A aurora ainda mostrava suas cores espalhadas pelo céu, quando a pipa colorida do menino, de um papel translúcido, misturava seu colorido com o proporcionado pelos raios de sol daquela majestosa manhã de primavera. Entre sorrisos e gritarias de outras crianças, outras pipas foram se juntando a primeira e o céu se transformou em um sorriso de criança.

Mais tarde, o sol em seu ponto mais alto e deixando que o azul predominasse até a linha do horizonte, apenas uma pipa dançava com movimentos lentos e ritmados. Presa a um galho de uma figueira ignorava e era ignorada pelo rapaz, seu construtor, sentado ao lado de sua namorada que, com a cabeça deitada sobre seu peito, ouvia as mágicas palavras de uma poesia recitada com pausas e ênfases de quem tem a eternidade pela frente. Além de suas palavras, apenas se ouvia o som das franjas da pipa que disputava o céu com o sol.

Recolhida, a pipa parecia um troféu daquele dia que iniciou colorido e disputado tanto no céu quanto pela correria dos meninos e depois testemunhou o romance tranquilo de dois jovens, que pareciam dominar o dia e não lembrar que existia noite, pois o calor do sol e das palavras ainda aquecendo a todos, parecia deslumbrar eternidade.

As primeiras cores do crepúsculo foram se delineando no horizonte. Um vermelho forte predominava sobre os tons mais discretos de alaranjado e amarelo, mas havia ainda um azul de várias tonalidades que teimosamente permanecia naquele entardecer.

Em um outro local, um velho, com a cabeça recostada sobre o tronco de uma figueira, ambos tão enrugados como só pode ser obra do tempo, vislumbrava os restos de uma pipa presa nos galhos secos de uma outra árvore, pedaços de madeira com cordas e restos de papel descolorido, mas que teimosamente buscava movimentos, então grotescos, como se buscasse um retorno ao céu, aproveitando a leve brisa daquela tarde quase noite.

Fechando os olhos definitivamente, a alma abandonou o corpo do velho e, transformada em uma enorme pipa colorida, subiu aos céus e juntou-se a todas as pipas de sua existência. Juntas, aquelas pipas construídas por crianças, jovens e velhos, confundiam o tempo e misturavam criaturas e criadores. Subiram tão alto que passaram a ver o sol permanentemente. Aurora e crepúsculo passaram a ser uma coisa só. O tempo não mais existia. Existiam cores; lembranças de poesias, de correrias e gritos de crianças. O ciclo da existência cumpria seu papel e se encaminhava para a eternidade, mas, aqui, em um outro dia, outras pipas começavam a colorir o céu…

© Neiff Satte Alam é professor Universitário Aposentado – UFPEL Biólogo e Especialista em Informática na Educação

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