CEEE. Breve história de um fracasso

Foi numa longa noite às escuras na minha residência em Porto Alegre que surgiu a inspiração para este artigo. Como muitos gaúchos, vislumbrei na escuridão de meu escritório o quanto ideologias ultrapassadas podem conduzir um país às trevas.

A CEEE, hoje, é um monumento à incompetência erguido por políticos que insistem em deixar serviços essenciais nas mãos ineptas do Estado.

Mais do que professar ideologias ultrapassadas, políticos que se opõem às privatizações são mal-intencionados, pois, no fundo, o estatismo é uma forma de controlar a sociedade.

A malfadada história começou quando, lá atrás, o PT venceu as eleições e interrompeu a privatização de estatais liderada pelo governador Antônio Britto, que havia conduzido a venda de 2/3 da CEEE.

Duas décadas depois, os gaúchos sofrem as consequências de forma distinta. Uma banda é servida pela RGE. Outra, que abrange a capital, litoral e sul do Estado, permanece presa à ineficiência, ao corporativismo e à politicagem que regem a estatal.

Felizmente, para todos os gaúchos, Britto conseguiu se desfazer da CRT. Ou o acesso à internet talvez ainda fosse discado. Desde então ficou mais difícil privatizar.

Conduzido pelo anacronismo petista, a Assembleia Legislativa aprovou a exigência constitucional de plebiscito antes da venda de estatais. O governador Ivo Sartori tentou revogar este dispositivo. Foi sabotado pelo PSDB do atual mandatário estadual.

Nestes 20 anos, enquanto parte do leste asiático, por exemplo, deixou à iniciativa privada tarefas que ela faz melhor, o Rio Grande inchou a CEEE (com os pelegos sindicais) e destruiu sua gestão (deixando-a nas mãos de apaniguados de políticos). O resultado era previsível. Na velocidade com que a conta de luz chega à residência dos usuários, a companhia estadual rumou à falência operacional e financeira.

De acordo com o Ranking de 2018 da Aneel, a CEEE é a vice-campeã entre as piores distribuidoras de energia elétrica do Brasil. Interrompe o serviço com muita frequência e demora a restabelecê-lo.

Controlada pelo Governo Gaúcho, a CEEE quase perdeu a concessão em 2015.

Num acordo de última hora, a Aneel garantiu sobrevida com a promessa, não cumprida, de que seu controlador injetaria recursos na ineficiente companhia.

Reféns do populismo estatista, os gaúchos agora dependem das promessas de um governador nada afeito a cumprir compromissos eleitorais. Pois o governador poderia começar a apagar a fama de Pinóquio e agir conforme o que prega nas redes sociais.

Quando o STF decidiu, em dezembro, que devedores contumazes de ICMS deveriam ser presos, Eduardo Leite comemorou a sentença. Se estava mesmo dizendo a verdade, ele deve se jogar à imolação e, pelo menos uma vez, ser coerente com o que diz.

A CEEE, para quem não sabe, deixou de repassar ao Erário Estadual o ICMS que recolhe dos contribuintes. Apropriação dolosa de dinheiro alheio, condenou o STF. A dívida se aproxima dos R$ 3 bilhões.

Se o STF está correto, como assentiu o governador, que tal defender a prisão da diretoria da CEEE e de seu controlador, que habita o Piratini?

Aliás, para quem não sabe, quando prefeito de Pelotas, Leite não pagava as contas devidas à CEEE. Hoje, o município é um dos maiores devedores da estatal. Ou seja, o governador ajudou a cavar o buraco negro da CEEE.

Enfim, leitor, eis uma breve história do fracasso de uma estatal. Já são 21h, e a Bela Vista continua às escuras.

Ao ligar para a CEEE, depois de responder uma dúzia de perguntas, ouço da atendente que será necessário a poda de árvores e não há previsão para a volta do serviço essencial.

Como está acabando minha paciência, minha bateria e o espaço deste artigo, vou parar por aqui. Antes que eu escreva o que comentei com um amigo naquela noite sobre o que penso da CEEE e de seu controlador.

Battery low. A de meu celular. A da CEEE já se foi há muito tempo.

* Foi CEO da Falconi, presidente do Banrisul, secretário de Planejamento do RS e candidato ao governo gaúcho.

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