Na democracia, a rua é de todos – por Mateus Bandeira

O Brasil conviveu durante 21 anos com governos de esquerda. Em que pesem alguns poucos acertos, PSDB e PT moldaram, para pior, o Brasil que vivemos hoje.

Nestas duas décadas, o direito de protestar foi amplamente exercido. Não podia ser diferente, já que a Constituição garante este direito.

Os protestos, de maneira geral, eram iniciativas de agremiações de esquerda. Caso das manifestações a favor do aborto, contra as privatizações, a favor dos privilégios dos servidores, a favor do desarmamento, contra o agronegócio.

O ano de 2013 acabou com este monopólio. No começo, reuniu manifestantes de todas as tendências que protestavam contra alvos diversos, como o aumento das passagens.

Aos poucos, porém, a direita, depois de passar anos recolhida, tratou de aglutinar-se. Com o lançamento da candidatura Jair Bolsonaro, este fenômeno ampliou-se e movimentos diversos de direita e antiesquerda decidiram ocupar as ruas organizadamente.

Foi o que bastou para que a esquerda e parte da mídia começassem a taxar as novas manifestações de antidemocráticos. Um caso célebre foi o do Queermuseu.

Capitaneado pelo MBL, um grupo de cidadãos desconfortáveis com a exposição de péssimo gosto e desrespeito religioso decidiu protestar. Imediatamente, grupos ligados a siglas de esquerda, com apoio da imprensa, apontaram censura no ato dos manifestantes.

Ficou evidente que era legítimo esculachar a fé alheia, mas tratava-se de censura criticar uma arte ofensiva aos valores de milhões de brasileiros. Até hoje, militantes travestidos de artistas debocham da imagem de Jesus Cristo – embora não tenham a mesma coragem para atacar Maomé.

Sem medo da patrulha

Eis que a direita, cada vez mais organizada e sem medo da patrulha, resolveu sair às ruas novamente. Mais uma vez para dizer que o Congresso Nacional e o STF fazem mal ao Brasil.

Embora não tenha se manifestado publicamente em favor do ato de 15 de março, Bolsonaro passou a ser atacado. Equívoco, pois ele não endossou o manifesto contra Legislativo e Judiciário.

Mais grave, porém, é o desprezo elitista por tudo que vem da direita. Regados à soberba, pensadores de esquerda acreditam que só eles sabem o caminho da libertação do proletariado e do campesinato. Ultrapassados no pensamento e na linguagem.

Bolsonaro não inventou a direita. Seu mérito foi perceber as insatisfações deste imenso contingente e galvanizar esta disposição que reuniu apoio de 57,7 milhões de eleitores em 2018.

Agora que a direita, legitimamente, percebeu que também sabe protestar, a esquerda e parte da mídia classificam estes atos como antidemocráticos. Nada mais antidemocrático do que esta atitude hipócrita.

Bater no Bolsonaro, pode

O presidente sofre ataques diários da imprensa, e isto é democrático. Se o presidente revida, isto é antidemocrático.

Os parlamentares criticam virulentamente o Executivo, inclusive com baixarias, e isto é democrático. Se os cidadãos resolvem defender as reformas presidenciais, isto é antidemocrático.

O que existe, consequência de um longo domínio político e cultural da esquerda, que aos poucos vai se tornando démodé, é um tremendo preconceito contra a direita. É cool ser de esquerda. É fascista ser de direita.

Cansados do velho establishment

Em vez de forjar rótulos contra os manifestantes, seus críticos deveriam procurar entender o que leva milhões de brasileiros às ruas. Alguns exemplos.

As pessoas estão cansadas do toma-lá-dá-cá do Legislativo. As pessoas estão cansadas dos ataques à Lava-Jato e ao ministro Sergio Moro.

As pessoas estão cansadas de financiar, por meio dos fundos partidário e eleitoral, as campanhas de malfeitores e parasitas. As pessoas estão cansadas com um STF que come lagosta às suas custas e veta a prisão em segunda instância, favorecendo criminosos endinheirados.

As pessoas estão cansadas de um Congresso Nacional que quer assumir o papel do presidente da República ao se apoderar bilhões de reais em recursos públicos por meio de emendas parlamentares. As pessoas estão cansadas do oportunismo dos que falam em impeachment de um presidente que não aceitou fazer negociatas com o Parlamento.

O que acontece hoje no Brasil – e, aos poucos, o velho establishment político vai se dando conta disto – é que a maioria se cansou da esquerda anacrônica e corrupta, cujo legado por onde passou foi a miséria. Quem realmente defende a democracia sabe que as ruas devem ser livres e palco da diversidade de opiniões.

Isto vale para os que aplaudem partidos embolorados, defensores de regimes autoritários. E vale para os que defendem a modernidade econômica e os valores da família.

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