E o Mandetta, hein? Por Ricardo Rangel

E o Mandetta, hein? Que situação.

Em condições normais, tinha obrigação de se demitir. Mas as condições são muito extraordinárias.

Se pedir demissão, Mandetta será tachado de irresponsável, covarde, frouxo e judas, e acusado de abandonar a Nação quando ela mais precisa dele. Pode se tornar um morto-vivo político.

Se baixar a cabeça, será tachado de irresponsável, covarde, frouxo e lambe-botas, e acusado de cúmplice de uma tentativa de genocídio. Pode se tornar um morto-vivo político.

A sinuca de bico, no entanto, tem uma saída clara. Só que exige muita coragem, desassombro e nervos de aço.

Mandetta tem que dar uma coletiva denunciando o pronunciamento do presidente. Tem que deixar claro que é ministro da Saúde do Brasil e não de Bolsonaro, e mostrar que o presidente está fora da realidade. Que se for feito o que ele pede, teremos centenas de milhares de mortos. Mas não se demitir: tem que continuar despachando normalmente — e nem sequer atender o telefone quando Bolsonaro ligar.

“Audácia, mais audácia, sempre audácia!”, disse Danton.

Se fizer isso, Mandetta será destruído pela máquina bolsonarista de moer gente — mas inverte o jogo, e quem fica na sinuca de bico é o presidente.

Se Bolsonaro deixar por isso mesmo, vira um morto-vivo político e Mandetta se torna o homem mais poderoso da República.

Se Bolsonaro o demitir, o assunto está resolvido. E cria uma hipótese muito concreta de Bolsonaro cair em 10 dias. Se cair, Mourão entra e imediatamente reconduz Mandetta ao cargo. Mandetta se torna o homem mais poderoso da República.

É uma situação perde-perde que pode virar ganha-ganha.

Mas… ontem de tarde, Mandetta disse que os governadores estão exagerando nas medidas. E a Veja relatou que o pronunciamento de Bolsonaro teria sido combinado com Mandetta.

Todo mundo que trabalha com Bolsonaro mais cedo ou mais tarde se torna puxa-saco e se desmoraliza. Parece que Mandetta não não vai ser o Danton de que tanto precisamos.

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