Talvez a comparação mais interessante seja entre Itália, Irã e Coreia. Por Pedro Hallal

A tabela abaixo mostra alguns dados interessantes sobre o COVID-19.

Na segunda coluna numérica, é apresentado o dia em que cada país está desde a décima morte pelo COVID-19. Esse é um indicador do estágio da pandemia no local.

A terceira coluna apresenta a mortalidade atual (dia 25/03) ajustada pelo tamanho da população (mortes/1 milhão de pessoas).

A última coluna mostra qual era essa mesma mortalidade quando cada país estava no dia 5 desde a décima morte (caso do Brasil ontem).

INTERPRETAÇÕES

1. Os dados do mundo devem ser interpretados com muita cautela, tendo em vista que, por um bom tempo, a infecção esteve concentrada em apenas um país (China).

2. Talvez a comparação mais interessante seja entre Itália, Irã e Coréia, pois os três países registraram a décima morte com apenas 24 horas de diferença. Na Itália, a mortalidade atual é de 112,8 por 1 milhão, ou seja, 0,01%. Na Coréia, a mortalidade atual é apenas 2,5 por 1 milhão, ou seja, 0,00025%. Já no Irã, a mortalidade atual é de 23,0 por 1 milhão, ou seja, 0,0023%. Compreender essas diferenças abismais é um desafio, mas também uma obrigação, da saúde pública global.

3. Ainda comparando os mesmos três países, é importante avaliar como estavam eles no quinto dia após a detecção da décima morte. Na Itália, até aquele momento, a mortalidade, que hoje é de 112,8 por 1 milhão de habitantes, era de apenas 0,5 por 1 milhão de habitantes. Na Coréia, que hoje está em 2,5 por 1 milhão, era 0,3 por 1 milhão, e no Irã, que hoje está com mortalidade de 23,0 por 1 milhão, era de 0,4 por 1 milhão.

4. É evidente que os primeiros dias de uma pandemia são absolutamente incontroláveis, especialmente no caso do COVID-19, que se alastra rapidamente. No entanto, as ações adotadas pela Coréia do Sul a partir daí, explicam a razão para sua colossal diferença em comparação ao Irã e Itália. O que a Coréia fez? isolamento social rigoroso e testagem em massa.

5. No quinta dia após a décima morte, a situação disparadamente mais dramática é a observada na Espanha. Enquanto todos os outros países tinham mortalidade abaixo de 1,0 por 1 milhão naquele estágio, a Espanha já possuía mortalidade de 2,6 por 1 milhão.

6. O Brasil encontra-se em estágio bastante anterior a maioria desses países, o que torna as comparações desafiadoras. No entanto, vale a pena interpretar alguns números brasileiros. Mesmo tendo a segunda maior população entre esses países (atrás apenas dos Estados Unidos), no quinto dia após a décima morte pelo COVID-19, somente os próprios Estados Unidos, o Japão e a Coréia do Sul tinham taxa de mortalidade tão baixa quanto a brasileira.

7. Conforme mostrado na comparação entre a terceira e a quarta coluna, a mortalidade, mesmo ajustada para o tamanho da população, tende a aumentar conforme avança a pandemia (segunda coluna). Evidentemente, o desafio brasileiro é que esse avanço seja semelhante ao observado no Japão, na Coréia do Sul e na Alemanha, por exemplo.

8. Para isso, devemos fazer o mesmo que esses países, ou seja, manter rígidas as medidas de isolamento social, por pelo menos mais algumas semanas, e investir na testagem em larga escala, não apenas dos pacientes sintomáticos ou hospitalizados, mas de toda a população.

9. Essas são as recomendações de saúde pública baseadas na evidência científica disponível. Não há dúvidas de que tais medidas terão impactos econômicos catastróficos. Para minimizá-los, é essencial que os Governos cumpram o seu papel de governar para quem mais precisa, e não para quem mais tem.

10. A testagem em larga escala, que identifique pessoas já expostas ao vírus e, portanto, com anticorpos, é a maneira mais efetiva de recompor gradativamente a força de trabalho no Brasil.

4 thoughts on “Talvez a comparação mais interessante seja entre Itália, Irã e Coreia. Por Pedro Hallal

  1. Caros, no intuito de colaborar e acalmar os ânimos, leiam a entrevista deste renomado especialista frances (Prof Didier Raoult), sobre esta medicação, de nova não possui nada. Muito esclarecedora, penso que voces podem traduzir e colocar no “site” para a população acalmar-se. Esta versão está em Inglês, o original é francês: https://thesaker.is/interview-with-professor-didier-raoult-in-the-parisien-newspaper-22-march-2020/?fbclid=IwAR22vLNw-fTHGpvJVuI3PKiHaOUgSi1DJcb7BKaLZ5E8Aji4AWufswYMdJc

  2. Acrescento a sua análise dois aspectos, o clima, que segundo divulgado afeta a proliferação do vírus e a diferença entre fechamento do pais e quarentena horizontal interna. Eu como leigo, observo através de matérias como a sua e de diversos outros especialistas, que o fechamento atrasado dos países contribuiu negativamente. Foi o caso da Italia, mas mesmo na itália, observando os dados divulgados pelo Corriere della sera de hoje (https://www.corriere.it/salute/malattie_infettive/20_marzo_27/coronavirus-italia-86498-casi-positivi-9134-morti-bollettino-27-marzo-0ca20dea-7043-11ea-82c1-be2d421e9f6b.shtml), conseguimos extrair um dado muito promissor para as pessoas no Brasil, quanto mais ao Sul na Italia, menos contaminação e menos morte (efeito calor). Quanto a quarentena horizontal, é ótima e ideal, mas alguns países não suportam este tipo de medida. Outro aspecto, olhando os números absolutos destes países, a taxa de mortalidade me parece baixa, realmente alinhada ao presenciado no H1N1, mas infelizmente, e diferente da H1N1, atinge a população idosa. Sem esquecer os pacientes com problemas crônicos e com baixa imunidade, sempre alvos. Olhando tudo isto, consumindo diversos relatórios, assistindo muitos vídeos, tenho mais uma vez, o sentimento de desamparo! Apesar de haver pessoas com curriculum colocando suas carreiras a prova, como o Dr Osmar Terra e o Dr Anthony Wong (USP), que alias, foi cortado vergonhosamente pelo CNN Brasil numa entrevista esclarecedora, estamos novamente, tratando o assunto com o viés ideológico. Basta rezar e pedir a Deus, que em números absolutos, o Brasil não repita os números da Itália, lembrando, que o Norte da Italia é o Sul do Brasil o qual está adentrando no período das infecções virais. Abraço e boa noite!

  3. Dale Pedro. Ótima leitura dos dados e perfeita abordagem para os problemas econômicos. Parabéns. Abraco

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