‘Três histórias de quando vejo membros do governo com Bolsonaro’. Por Ricardo Rangel

Ao ver a relação dos integrantes do governo com Bolsonaro, me vêm à mente três referências:

PRIMEIRA

Em Mephisto, de István Szabó, Klaus Maria Brandauer é um ator que adere ao regime nazista (não, fiscal de Godwin, não estou comparando Bolsonaro a Hitler, pelo menos não no contexto proibido) e se torna uma figura importante e bem sucedida na cena cultural alemã.

À medida que o tempo passa, o regime exige mais e mais provas de fidelidade. Brandauer vai fazendo concessões, baixando a cabeça em questões cada vez mais importantes, com cada vez mais frequência, até que se torna um sujeito sem alma e sem dignidade. No fim, percebe que está desempenhando o papel de Fausto, o que vendeu sua alma.

No governo Bolsonaro, já vimos processo similar acontecer com Lorenzoni, Osmar Terra, Moro, Guedes e outros. Começou a acontecer com Mandetta no dia em que chamou o presidente de “timoneiro”, e aconteceu outras vezes, como quando recomendou adiar as eleições e falou de economia (assuntos que não lhe competem). Se Mandetta não mudar de atitude, vai se desmoralizar e inviabilizar o combate o vírus.

Mephisto

SEGUNDA

Nos anos 30, os líderes ingleses e franceses satisfaziam todas as exigências de Hitler, na esperança de aplacar-lhe o apetite e evitar a guerra. No fim, a guerra veio da mesma maneira, a França foi invadida e ocupada, e a Inglaterra escapou por um triz do mesmo destino.

“O aplacador é o sujeito que alimenta o crocodilo na esperança de ser o último a ser devorado”, disse Churchill.

Vale para todos os integrantes do atual governo, que vivem bajulando o capitão na esperança de lhe conquistar a confiança e obter um pouco menos de confronto e humilhação.

Não é diferente com Mandetta.

(Alô, fiscais de Godwin, a comparação com Hitler é admissível neste caso, porque se refere a traços de todo líder autoritário, e não àquelas características monstruosas que só Hitler tinha.)

Hitler

TERCEIRA

Nos anos 50, no auge da paranoia anticomunista americana, o senador e caçador de comunistas Joseph McCarthy, um dos maiores canalhas da história dos EUA, era especializado em destruir as vidas de pessoas a quem acusava de comunistas. Era poderosíssimo, e um espetacular assassino de reputações. Todos o temiam e se submetiam a ele.

Um belo dia, McCarthy, que dizia que as Forças Armadas estavam repletas de comunistas, decidiu perseguir e destruir um jovem tenente. Os militares escolheram para defendê-lo um advogado civil, velhinho e simpático, chamado Joe Welch. Lá pelas tantas, quando McCarthy interpelava e intimidava o jovem de maneira impiedosa e implacável, Welch, mandou:

“Mas o senhor não tem nenhum senso de decência?”

McCarthy hesitou, engoliu em seco, tentou retomar sua linha de argumentação. Foi cortado:

“Mas o senhor não tem nenhum senso de decência?”, repetiu Welch.

McCarthy engasgou e ficou sem palavras. Foi um enorme burburinho no Senado. No dia seguinte, McCarthy estava acabado. Ninguém nem mais sequer o cumprimentava.

Valentões são fracos e inseguros. Recorrem à truculência porque não têm ideias nem argumentos. São frágeis, não aguentam o tranco. Não é difícil vencer valentões: basta não temê-los e reagir com energia. Quando confrontados, perdem as estribeiras, ficam descompensados, têm chiliques. Ou recuam.

Ricardo Galvão sabe isso. Ronaldo Caiado também. E João Doria. Luiz Henrique Mandetta precisa saber.

Joe Welch

© Ricardo Rangel

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