Hora de sacrifício para o andar de cima! Por Mateus Bandeira

Períodos de crises graves e perturbadoras, como o que enfrentamos com a ameaça da covid-19, podem mostrar o melhor e o pior de cada indivíduo. Também podem ser momentos de transformações.

A Europa, com a ajuda dos EUA, renasceu da devastação causada pela 2ª Grande Guerra, e criou o Estado do Bem-Estar Social. À exceção dos países da Cortina de Ferro, as nações europeias experimentaram um longo período de melhoria na qualidade de vida.

Winston Churchill, o líder obscurecido pelo fracasso militar durante a 1ª Grande Guerra, revelou-se decisivo. Sem ele, as potências do Eixo talvez não tivessem sido derrotadas.

Ainda não sabemos a dimensão da atual crise. Os remédios para enfrentá-la estão sendo debatidos.

É indiscutível, no entanto, que imensos sacrifícios serão exigidos de todos. O Governo Federal anunciou desembolsos de R$ 750 bilhões. Parte deste montante vai para os que mais precisam, como desempregados e trabalhadores informais.

O custo desta ajuda milionária será absorvido pelo erário, com mais dívida – o que significa que será pago mais adiante por todos nós, na forma de mais impostos. Justo, assim, que parte desta conta seja paga pelos mais abastados.

Os empresários que tiverem condições devem evitar demitir. Os bancos devem reduzir seus lucros.

Ao mesmo tempo, um setor expressivo da máquina pública deve participar do sacrifício coletivo. Refiro-me aos servidores públicos.

Este estamento privilegiado pode ganhar um pouco menos para que o imenso grupo dos desfavorecidos receba um pouco mais. Há, aí, dois aspectos embutidos, um moral e outro financeiro.

Em termos morais, a iniciativa deveria partir do funcionalismo. Parece evidente que não faz o menor sentido manter salários e penduricalhos altíssimos, enquanto milhões de brasileiros terão dificuldade para comprar comida e remédios.

Como este mundo ideal não existe, a tarefa cabe aos três poderes da República. Representantes do Executivo, Judiciário e Legislativo devem se sentar imediatamente para decidir a contribuição de cada um.

Por quê? Porque, ao contrário dos trabalhadores, o funcionalismo não vai perder nem seus empregos, nem seus salários.

O quadro de servidores, porém, não pode ser visto de maneira uniforme. Há servidores que recebem baixas remunerações.

Além disso, setores como os da saúde e segurança vão trabalhar mais do que os demais. Justo que eles tenham tratamento diferente.

Mas que tal estabelecer uma linha de corte? Para começar é possível determinar que nenhum servidor receberá mais do que o teto remuneratório de R$ 39,2 mil mensais.

Podemos avançar e acabar com todos os penduricalhos. Apenas em auxílio-moradia é possível economizar R$ 4,7 bilhões, e outros R$ 10 bilhões com a parte dos supersalários que excede o teto.

Ninguém vai passar fome ou ser despejado se não dispuser do auxílio-moradia. Obviamente, estes cortes devem atingir toda a cúpula dos três poderes, como os parlamentares e magistrados.

É o caso dos fundos partidário e eleitoral. Juntos, somam cerca R$ 3 bilhões.

Nunca seremos uma nação justa enquanto a iníqua diferença entre teto e piso salarial for tão gritante. Mais escandaloso, ainda, é saber que o topo da pirâmide de salários é custeado com dinheiro público.

Portanto, não há que falar em sacrifício, mas solidariedade.

Sacrifício fazem os pequenos empresários, que terão que demitir. De sacrifício padecem os miseráveis, que não terão o que comer. Desesperador é o que viverão os trabalhadores informais e os desempregados, sem renda.

Diante deste quadro gravíssimo, melhor seria que quem tem mais cedesse espontaneamente parte de seus ganhos. Ou, pelo menos, sem resistência.

 Se isto parece utópico, cabe às cúpulas dos três poderes decidir urgentemente uma forma de minimizar as perdas da imensa maioria dos brasileiros. Talvez seja este o momento histórico para que o Brasil salte de uma nação injusta e em desenvolvimento para um país justo e desenvolvido.

© Mateus Bandeira Foi CEO da Falconi, presidente do Banrisul, secretário de Planejamento do RS e candidato ao governo gaúcho.

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