O poço. Por Déborah Schmidt

Sucesso no Netflix, o filme espanhol O Poço se passa em uma prisão vertical com centenas de andares onde cada cela, sem janelas, abriga dois presos cada. No meio, um enorme buraco permite enxergar os andares superiores e inferiores, e é por onde a alimentação é oferecida diariamente.

Neste contexto conhecemos Goreng (Ivan Massagué, ótimo), um homem que entrou lá por conta própria com o intuito de parar de fumar e que levou consigo uma cópia de “Dom Quixote”.

Lá dentro ele conhece Trimagasi (Zorion Eguileor), seu primeiro companheiro de cela. Há meses na prisão, o velho explica ao novato que a única coisa que eles precisam fazer é esperar por uma plataforma de comida, composta por um verdadeiro banquete, que se move de cima para baixo entre os andares todos os dias. Como Goreng e Trimagasi estão no nível 48, eles precisam aguardar que os dois presos em cada um dos 47 níveis acima se alimentem até que os restos cheguem ao seu andar.

Vale destacar que cada nível tem poucos minutos para se alimentar enquanto a plataforma estaciona, antes que volte a se mover para baixo. Além disso, a comida não é reposta e é proibido estocá-la. E sim, acontece exatamente o que vocês estão pensando: os prisioneiros dos andares superiores comem tudo o que podem, deixando apenas sobras e migalhas para as pessoas dos níveis inferiores. Em resumo, quanto mais baixo o nível, maior a chance de passar fome. Essa rotina se desenvolve até o final de cada mês, quando os presos são misturados e alocados aleatoriamente em um novo andar, que pode ou não ser mais elevado que o anterior. Ao demonstrar empatia com os outros prisioneiros, o comportamento inicial de Goreng é idealista, de alguém que acredita na possibilidade de criar mecanismos para diminuir as desigualdades. Segundo ele, basta conscientizar quem está nos níveis superiores para um consumo sustentável, pegando apenas o estritamente necessário. Desta forma, ninguém passaria fome.

Dirigido pelo estreante Galder Gaztelu-Urrutia, o longa possui uma qualidade técnica primorosa e o design de produção apresenta uma sensação de claustrofobia angustiante. Através da metáfora de um poço, o roteiro de David Desola e Pedro Rivero busca debater a desigualdade social e a selvageria proporcionada pelo capitalismo.

Em tempos de confinamento e também por sua temática sombria, aproveito para salientar que o filme não é adequado para todos. O longa não economiza em imagens extremamente fortes, com direito a cenas com canibalismo e escatologia. O final, ambíguo e enigmático, com certeza vai gerar discussões e teorias durante muito tempo, afinal, são várias as interpretações com a conclusão dessa história, como resultado de diferentes perspectivas.

Complexo e sádico, O Poço é um excelente filme, daqueles que mesmo de maneira ficcional retrata nosso mundo atual de uma maneira real e assustadora.

Déborah Schmidt é formada em administração e servidora.

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