‘Argumentos de Terra sobre quarentena não param de pé’

O médico e deputado Osmar Terra divulgou um vídeo neste domingo, nas redes sociais, voltando a defender o fim do isolamento vigente no País por conta do coronavírus.

O vídeo de Osmar está no pé do post. Basicamente, ele diz que a quarentena, em vez de retardar o contágio e o número de doentes, vai é fazer o contrário, aumentar o número de doentes.

Conversei com um amigo, estudioso, debruçado há semanas sobre o tema coronavírus e economia. Pedi que comentasse o vídeo de Terra. Pediu para não ser identificado, mas comentou.

Terra: argumentos frágeis

O amigo diz:

Os argumentos do Osmar são frágeis. E, dos gráficos que apresenta, não é possível extrair as conclusões que extrai.

Há um claro problema metodológico e estatístico nos gráficos, o raciocínio dele não é concatenado. Os argumentos não param de pé.

Num primeiro momento, Terra diz que milhões de pessoas já estão infectadas e que, por isso, não adianta a quarentena. Que esta não achata a curva do contágio. Em seguida, fala que a quarentena ‘piora o quadro, pois aceleraria a infecção dentro de casa’. Ora, se é fácil se contaminar, parece-me que os familiares já estariam contaminados antes da quarentena. Se ele diz, como diz, que a quarentena é inútil, porque todo mundo está contaminado, não faz sentido ele alegar que “a quarentena vai contaminar familiares”.

Gráfico

Tentar usar gráficos de infectados ou de mortes, para consideração, não se presta. Porque cada país adotou quarentena em momento diferente.

Além disso, em todos os casos em que se detecta infectados, o gráfico é construído mais em cima do volume de testes que se faz, não em virtude do quanto o vírus se espalhou. À medida que os países começam a fazer mais testes, a curva obviamente empina, não porque tem mais gente infectada, mas porque os países passam a fazer mais testes; então, a curva não se presta para análise.

Não adianta ele falar em curvas de mortes, pois elas têm defasagem temporal. O vírus fica incubado 15 dias; depois que se manifesta, até a pessoa adoecer e morrer, leva mais 15 dias. Há uma defasagem de um mês nas curvas de mortes. Os gráficos que ele utiliza não abarcam essa defasagem. Como é então que pode afirmar que a quarentena teve ou não teve impacto nos gráficos? Isto é impossível porque não houve tempo para se chegar a essa conclusão.

Concordo com o argumento dele de que não há evidência científica de que se consiga achatar a curva. Não há de fato comprovação. Mas considero a explicação dele frágil. Se botar qualquer estatístico do lado dele, ele vai se perder.

Leitos

A dificuldade que tenho de entender que ‘só achatar a curva’ ajuda a evitar a sobrecarga do sistema de saúde (e leitos), como querem fazer crer, é que o número de pessoas que se vai salvar é correspondente ao número de leitos de UTI que houver disponíveis e o número de meses que se conseguir colocar pessoas nos leitos.

Quando avaliam o achatamento da curva, funcionaria se tivéssemos um número de leitos que se aproximasse do achatamento da curva. Contudo, as distâncias entre um e outro são enormes.

Em Pelotas, por exemplo, estimam que 1.700 pessoas podem precisar de leitos por coronavírus. Já o número de leitos públicos que temos, 57, não ajuda… Então, eu pergunto: Resolve alguma coisa achatar a curva?

O que mais resolveria não seria aumentar o número de leitos para 100, 200?

Inverno

Mais: a gente vai achatar e empurrar a curva para o inverno… Já viste, não é!

Se a tese de que é possível achatar a curva é válida, é obvio que no inverno será muito mais difícil segurar a curva, com ou sem quarentena. Afinal, é no inverno que as infecções virais se propagam.

Então, a gente, na cidade, talvez esteja empurrando uma situação em que hoje, até onde sei, temos alguns leitos disponíveis, justamente para o momento mais difícil, inverno, quando os leitos estarão cheios.

O achatamento ajudaria se tivéssemos capacidade boa (leitos) e operando. Mas não temos.

Voltando ao exemplo de Pelotas, temos apenas 57 leitos, expectativa de demanda por doentes de coronavírus alta, e não vejo a priorização de aproveitar esse tempo em que se trabalha para achatar a curva para, ao mesmo tempo, aumentar fortemente, quintuplicar, o número de leitos.

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