Decisão de Paula de flexibilizar isolamento social traz um risco

Prefeita Paula Mascarenhas tem enfatizado que suas decisões em relação ao covid-19 serão sempre baseadas na ciência. Na live de hoje de manhã, ela explicou sua decisão de abrir o comércio gradualmente, a partir do dia 23 de abril próximo, com um argumento científico, mas duvidoso. Tanto é duvidoso, que ela alerta: poderá voltar atrás.

Paula disse que é necessário que o vírus, hoje com circulação reprimida, viaje um pouco para que haja “um certo contágio” da população, para formação de anticorpos.

O contágio humano pelo vírus, em grande escala, é inevitável a longo prazo. A longo prazo, a maioria das pessoas será contaminada, uma minoria adoecerá e precisará de atendimento hospitalar. A minoria que adoecerá, porém, a depender das condições do sistema de saúde, pode significar um problemão. Pode acontecer o aumento súbito de doentes que necessitem de socorro, acima da capacidade de resposta dos hospitais.

Na live hoje, mesmo que tenha acenado com uma abertura lenta e gradual da circulação de pessoas, a prefeita mostrou ter ciência do perigo acima. Tanto que estendeu por uma semana a vigência de seu decreto que fecha o comércio não essencial e reforçou sua preocupação com o distanciamento social, ainda mais na flexibilização. Ao longo desta semana, ela definirá, juntamente com o comitê de crise, a forma mais adequada para o relaxamento das medidas de contenção a partir do dia 23. Para que o relaxamento dê certo, será necessário que a população mantenha protocolos de comportamento social rigorosos.

Contágio é muito veloz 

Pedi ao reitor Pedro Hallal, da UFPel, se poderia comentar o relaxamento do isolamento que a prefeita pretende adotar. Pedro, que ontem apresentou as primeiras conclusões de um estudo sobre o covid-19 no RS, aceitou.

Concorda que é preciso que o vírus viaje para um certo contágio?

Honestamente, não sei. Por um motivo. Diferentemente de outros vírus, como H1N1, está provado que os coronavírus contaminam numa velocidade muito maior. Pode que, ao relaxar o isolamento social, as pessoas se descuidem em demasia e, de repente, o número de casos aumente subitamente.

Com o que conhecemos até aqui sobre esse vírus, é impossível afirmar, com segurança, qual a “dosagem ideal” da flexibilização temporal e formal das medidas de isolamento.

Como epidemiologista, considero que a opção mais segura seria prolongar o isolamento, empurrando-o o mais para frente possível, mesmo que seja ao inverno, quando as doenças respiratórias aumentam. Porque, quanto mais tempo tivermos, maiores serão as possibilidades de encontrar um medicamento ou uma vacina ou de preparar o sistema de saúde antes que a pandemia se espalhe massivamente.

Pedro Hallal

Comércio aberto

Perguntei ainda ao reitor:

O isolamento social é incompatível com o comércio aberto?

“Não é incompatível, desde que o comércio funcione em certos horários, não o dia inteiro, desde que com poucos funcionários, desde que o fluxo nos estabelecimentos seja controlado, desde que as pessoas conservem hábitos de higiene, usem máscaras e mantenham a distância física recomendada.

Com esses cuidados sendo seguidos à risca, pode ser que o relaxamento das medidas de isolamento não se revele um problema sério para o sistema de saúde. É uma doença nova e, sendo assim, aprendemos com ela todos os dias”.

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1 thought on “Decisão de Paula de flexibilizar isolamento social traz um risco

  1. A questão do fim do isolamento não depende de pesquisa e muito menos de ciência! Depende da própria população. O isolamento vem perdendo força em Pelotas desde a semana que antecedeu ao feriado de Páscoa. E seguiu assim após este período. Basta sair às ruas em horário comercial para comprovar. Muitos serviços não essenciais funcionando normalmente sem qualquer pudor. Diversas pessoas caminhando pelas ruas como se não houvesse o isolamento. Brasil não possui maturidade civilizatória para isto! Ainda mais se levarmos em conta a total desorganização governamental para lidar com o problema, independentemente de qual esfera se analise.

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