Crônica da quarentena

Quem poderia imaginar que viveríamos uma situação como esta, nossa vida sob a ameaça de um inimigo invisível que leva embora milhares de vida em um dia?

Tenho pensado nos mais velhos, aos que chegaram à grande idade, meu pai, a mãe da minha mulher, a mãe de um amigo querido, querida também, grande parte do tempo isolados.

A pandemia tem maltratado muito.

Quando a Aids apareceu, maltratou muito também. De tudo que ouvi naquela época, uma frase me ficou. O autor não era uma pessoa que eu admirava. Na tevê, entrevistavam Julio Iglesias, o cantor espanhol, que bombava no Brasil com um repertório, para o meu gosto, brega.

O repórter perguntou a Iglesias o que achava da Aids, como se pudesse dizer algo bom, e esticou o microfone. As cinco palavras de sua resposta:

“Acho uma coisa absolutamente injusta”.

De repente, percebi: naquele artista que eu considerava medíocre, havia uma pessoa sensível. Não ouvi ainda uma sentença sobre o novo vírus que nos assombra e faz solitários, mas aquela, para mim, segue perfeita.

Embora o contágio seja diferente, assim como ocorreu com a Aids, o covid-19 instalou entre nós o medo do outro. E agora, como naquela época, o sexo, essa fonte vital de exaltação e alegria, mais uma vez, inibida a aventura, foi podada.

A Aids era menos problemática, pois contaminava basicamente pela fricção sexual. O coronavírus é mais cruel, porque nos retira a escolha. Não podemos simplesmente conhecer alguém na balada e, na hora certa, puxar do bolso uma camisinha, até porque a balada está proibida.

Na pandemia atual, precisaríamos de acessórios corporais mais abrangentes, mas igualmente o sexo (me refiro ao casual) é perigoso. Não sei se vem acontecendo, tenho dificuldade de imaginar as pessoas por aí fazendo amor paramentadas de EPIs. Como dizem que o homem é o animal mais adaptável do planeta, talvez seja possível.

Estou sem fazer nada, quer dizer, escrevendo. Minha mulher dorme (4h da madrugada, hoje).

Há pouco fui ao quarto ver como ela estava. Estamos encerrados há 40 dias e noites, saindo só para o essencial. Fiquei observando o semblante dela, na penumbra. Ela é bonita acordada, mas ainda mais quando dorme, porque o semblante adquire uma expressão infantil.

Estivemos juntos naqueles anos aterrorizantes da Aids, anos 80 do século passado. Trinta anos depois, tornamos a vivenciar, juntos, o terror de um vírus. Naquele tempo tínhamos certo que passaria.

Com o distanciamento severo de agora, o noticiário e o carro de som cruzando a cidade com alertas de voz que lembram filmes de ficção científica, as certezas fraquejam um pouco, embora a gente acredite que vai passar, só pode passar, já passou uma vez, vai passar de novo.

Agora há pouco, observando-a caída no sono, tranquila, pensei: “Nossa segunda pandemia, hein, mascarada”.

Ela veste máscara quando sai. Parece uma bandoleira prestes a cometer um assalto. Ainda assim, linda.

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