‘Sergio’ tem muito a dizer, mas se perde

Ao longo de 34 anos, Sergio Vieira de Mello foi uma figura extremamente importante para a ONU.

O diplomata brasileiro foi responsável por implementar uma nova Constituição no Timor Leste após décadas de invasão da Indonésia, e logo depois esteve no Iraque para dar assistência aos civis durante a chamada “Guerra ao Terror”, promovida pelos EUA de George W. Bush após o atentado às Torres Gêmeas.

Sergio real e o ficional

Baseado no livro “O Homem que Queria Salvar o Mundo”, de Samantha Power, e produzido pela Netflix, Sergio traz Wagner Moura na pele do protagonista, morto em Bagdá em 2003 durante um bombardeio à sede da ONU local.

Dirigido por Greg Barker, que já havia produzido um documentário sobre o diplomata em 2009, o filme aposta no romance para conduzir o espectador aos momentos que definiram sua trajetória profissional.

Com isso, o filme explora o relacionamento amoroso de Mello com a argentina Carolina Larriera (Ana de Armas), em uma história que inicia com os momentos finais da vida do brasileiro. Esse instrumento narrativo evidencia uma montagem falha que prefere, desnecessariamente, voltar várias vezes no tempo.

Em virtude disso, a produção perde sua força dramática e, inclusive, o foco principal que deveria ser a presença de Mello no Iraque se perde durante a trama. Ao dar mais importância ao romance do que ao interessante jogo político, desfoca da importância do protagonista, em um desequilíbrio que empobrece a cinebiografia.

Como diplomata da ONU, Sergio Vieira de Mello defendia o trabalho em campo e atuava, sempre que possível, na linha de frente. É compreensível que o filme procure humanizá-lo, como na emocionante conversa com uma civil em Timor Leste.

O longa também mostra sua determinação (um exemplo disso é a sua dificuldade em dizer “não” às obrigações profissionais), e o constrói dando ênfase em suas qualidades e defeitos, como nos diálogos que reforçam sua posição contrária à dos EUA no caso da invasão no Iraque.

Sergio tem muito a dizer, mas se perde em sua própria estrutura. Com uma narrativa mais direta e linear, veríamos um filme ainda mais marcante. Assim como seu protagonista.

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