A Pandemia e o Autismo

Débora Jacks, diretora do Centro de Atendimento ao Autista

As máscaras passaram a fazer parte do nosso cotidiano, no sentido metafórico ou no sentido concreto. O desconforto na respiração, a sensação de abafamento criam uma resistência ao uso das mesmas, mas não adianta, precisamos usar, pelo bem de todos.

Uma coisa despertou minha atenção, os relatos muitas vezes dizem que se acostumam com as máscaras, treinando a respiração, o que as incomoda é o fato de não perceberem as expressões faciais das outras pessoas, ficam incomodadas em não definirem visualmente as respostas que não são palavras, mas imagens. Não pude deixar de pensar – pessoas autistas encontram muita dificuldade para ler nossas expressões faciais, e isto ocasiona muitas leituras equivocadas em relação ao outro.

Estamos sentindo na pele… A ansiedade e a angústia de não identificar o que o rosto do outro expressa. Focamos nos olhos e eles devem ser o suficiente, será? Ainda tem a questão de que falar utilizando máscara requer treino, muitas vezes não compreendemos o que a outra pessoa diz, desta forma a comunicação fica prejudicada, é preciso foco e atenção, e, muitas vezes, a repetição.

A pandemia está trazendo, de uma maneira avassaladora, muitos aprendizados. Não sabemos como será o amanhã, ficamos inseguros, ansiosos, nervosos, porque o dia de amanhã é imprevisível.

Novamente a relação com o autismo, o Transtorno de Espectro Autista.

Características de autismo

A necessidade de estruturação de rotinas é fundamental para que crianças, jovens e adultos autistas consigam se organizar. A mim parece que estamos tentando estruturar nossas rotinas em tempos de pandemia. Fazendo isto, diminuímos nossa ansiedade e tornamos possível o nosso dia, mas sempre com um sentimento de angústia lá no fundinho, ecoando.

Muitos estão reagindo impulsivamente às frustrações com atitudes agressivas, palavras agressivas, rompimento de regras, até perda de controle de comportamento. Não poder sair de casa tem despertado reações variadas, muitas vezes de enfrentamento, então novamente encontramos características do autismo.

Lavamos as mãos várias vezes por dia, passamos álcool gel muitas vezes, alguns de nós ficamos compulsivos. O medo faz com que se repita a ação mais vezes do que é necessário; mesmo sabendo disso, não conseguimos controlar, somente depois de realizar a mesma ação é que ficamos mais calmos.

Estamos neste exato momento tendo uma aula imperdível! Impossível assinar o nome na chamada e se esgueirar porta afora, desta vez foi convocação!

Tudo isto vai passar e se as pessoas se permitirem aprender. Irão ver um mundo novo, irão compreender melhor o que o outro sente, pois sentiu também.

O conceito da palavra empatia enfim ganhará vida!

Débora Jacks, diretora do Centro de Atendimento ao Autista

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