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Cultura e diversão

‘Resgate é de tirar o fôlego’. Por Déborah Schmidt

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Entre as muitas saudades que o isolamento social está proporcionando é a de ir ao cinema. Quem pode (e deve) ficar em casa assim como eu, aproveita novidades e filmes antigos disponíveis nas plataformas de streaming. Entre as opções originais, destaco o vibrante e insano Resgate, disponível no Netflix.

Na trama, Tyler Rake (Chris Hemsworth) é um destemido mercenário que recebe a difícil missão de libertar Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal), um adolescente indiano, filho de um traficante de drogas, que foi sequestrado por seu rival na cidade de Daca, capital de Bangladesh.

Baseado na HQ “Ciudad”, de Ande Parks, Joe Russo e Anthony Russo, o roteiro foi escrito por Joe Russo e produzido pelos irmãos, que são os grandes responsáveis pelo sucesso dos filmes da Marvel. Aqui o mérito também deve ser compartilhado com o diretor, o coordenador de dublês Sam Hargrave. Em seu primeiro trabalho como diretor de um longa-metragem, o dublê, que já trabalhou em vários filmes da Marvel, coloca em cena tudo que aprendeu na carreira, sem receio de mostrar violência, sangue e muitos tiros. Sua competência de manter a câmera firme, mesmo que na mão, persegue os personagens o tempo todo, colocando o espectador no meio da tensão.

Na única cena em que é possível descobrir alguns fatos da vida de Tyler é quando ele conta ao garoto que já perdeu alguém extremamente importante e afirma que, embora não pareça, não é um homem corajoso. Vemos então um protagonista que não tem nada a perder e que não tem receio das consequências de suas ações.

Simples, o roteiro não sufoca o filme com uma cena de ação atrás da outra, o que eventualmente o deixaria cansativo. Porém, entre as cenas de ação, destaque para a impressionante sequência de perseguição de aproximadamente 12 minutos, filmado de maneira que parece ser um plano-sequência e utiliza o mínimo de cortes possível, valorizando o incrível trabalho de Hemsworth junto com a equipe de dublês, que brilha desde a primeira cena de luta. Além disso, o final intencionalmente ambíguo não decepciona e já há especulações para uma sequência.

Frenético, de tirar o fôlego e com ótimas cenas de ação, Resgate é entretenimento da melhor qualidade. Uma excelente opção para os amantes do gênero.

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Déborah Schmidt é servidora pública formada em Administração/UFPel, amante da sétima arte e da boa música.

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Brasil e mundo

Morre, aos 91 anos, a cantora Elza Soares

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A música brasileira perdeu uma de suas vozes mais representativas. A cantora Elza Soares morreu hoje (20), em sua casa, de causas naturais, aos 91 anos de idade. Nessa mesma data, em 1983, morria o grande amor de Elza, o jogador de futebol Mané Garrincha. Ainda não há informações sobre o velório da artista.

Em comunicado divulgado no Facebook da cantora e assinado por assessores e familiares, a morte foi comunicada aos fãs:

“É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais. Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”, conclui o comunicado.

Nascida no dia 23 de junho de 1930, no Rio de Janeiro, na favela da Moça Bonita, atualmente Vila Vintém, no bairro de Padre Miguel, zona norte da cidade, a menina Elza Gomes da Conceição veio de uma família humilde e ainda pequena mudou-se para um cortiço no bairro da Água Santa, onde foi criada.

Elza Soares começou a carreia artística fazendo um teste na Rádio Tupi, no programa “Calouros em desfile”, de Ary Barroso, e conquistou o primeiro lugar. Após o concurso ela fez um teste com o maestro Joaquim Naegli e foi contratada como crooner (cantor de orquestra ou conjunto musical) da Orquestra Garam de Bailes, onde trabalhou até 1954, quando engravidou. No ano seguinte, voltou a cantar na noite e em 1960 lançou seu primeiro disco, Se Acaso Você Chegasse e, em 1962, seu segundo LP, A Bossa Negra.

Em 1962, Elza fez apresentações como representante do Brasil na Copa do Mundo no Chile, onde conheceu Louis Armstrong (representante artístico dos Estados Unidos), que lhe propôs fazer carreira nos EUA. Neste mesmo ano ela conheceu Garrincha, com quem se casaria e teria um relacionamento conturbado.

Elsa Soares fez carreira no samba, mas também transitou do jazz ao hip hop, passando pela MPB, lançando 36 discos na carreira. Ela foi eleita, em 1999, pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. A escolha teve origem no projeto The Millennium Concerts, da rádio inglesa, criado para comemorar a chegada do ano 2000. Além disso, apareceu na lista das 100 maiores vozes da música brasileira elaborada pela revista Rolling Stone Brasil.

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A cantora também ganhou diversos prêmios como três prêmios Grammy Latino e dois WME Awards e, em 2020, foi tema do enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

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Brasil e mundo

BBB, a pobreza amada

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Não sabia quem era Naiara Azevedo. Soube por alto, hoje, que é do BBB e já foi “cancelada por ser bolsonarista”, parece.

Digo que não a conheço não porque a menospreze. Realmente não sabia quem era; a rigor, continuo não sabendo. Devo estar fora de moda, apenas isso.

Até mesmo o termo “cancelar”, no sentido que vem sendo empregado (para gente), é recente para mim. Conhecia o termo “gelar”, que me parece, aliás, mais estimulante: figurativamente, significa embarcar uma pessoa em um trem e despachá-la para a Sibéria.

Respeito quem gosta do BBB. Pelo que divulgam, é muita gente, de todas as classes e níveis educacionais. Se há mercado, há de ter valor comercial e razão de ser.

Aparentemente os espectadores se veem na posição de cientistas. Podendo verificar as alterações do comportamento humano sob confinamento, como fazem, em gaiolas, com animais de laboratório.

Vi o primeiro programa mais ou menos. Talvez um pouco do segundo. Não me fisgou.

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Realmente não me toca, não me acrescenta nem me diverte.

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Cultura e diversão

Histórias de dois fugitivos

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Nessa última virada de ano, me vieram às mãos dois livros escritos por moradores de Pelotas sobre gente de cidades vizinhas — Arroio Grande e Bagé. Por coincidência, os dois escribas são/foram jornalistas que trabalharam com o genial Aldyr Garcia Schlee (1934/2018): João Félix Soares Neto no Diário Popular na segunda metade dos anos 1950; Luiz Carlos Vaz na UFPel desde 1973; e ambos na fugaz aventura da Gazeta Pelotense, no último trimestre de 1976. E mais: quem os colocou lado a lado, esgrimindo autógrafos, em meados de dezembro, no Mercado Central de Pelotas, foi Alfredo Aquino, o artista plástico que há pouco mais de dez anos fundou uma minúscula editora (ardotempo) para reeditar todos os livros de AG Schlee – mais de uma dúzia.

Luiz Carlos e João Féliz

Sim, são muitas coincidências, mas a maior delas é que, nas duas obras recém-lançadas, os protagonistas centrais citados nos títulos dos livros – “A Forja de Salus” e “A História de Abel” — são dois gaúchos que se viram compelidos a fugir na calada da noite para não ter de pagar por atos reprováveis. Naturalmente, não cabe aqui entrar em detalhes sobre os mal feitos de cada um, exceto que os supostos criminosos sumiram para nunca mais. Registre-se que os dois livros têm capas fotográficas de ótima qualidade: a forja de João Félix é representada por uma bigorna iluminada por um facho de sol de inverno – obra de Marcelo Freda Soares; no caso de Abel, a foto tirada por Alfredo Aquino mostra o autor Luiz Carlos Vaz, de costas, espiando através de uma dos vidros bisotées das portas do lendário Theatro Esperança, de Jaguarão. Espiando o quê? O passado, com certeza.

“A Forja de Salus” é uma narrativa romanceada sobre fatos ocorridos em Sanga Rasa, o pitoresco nome ficcional de Arroio Grande, a terra natal de João Félix, que saiu dali aos 18 anos para fazer o serviço em Pelotas, de onde nunca mais saiu. A história é inspirada em acontecimentos vivenciados na meninice do autor, mas não se resume a um desfiar de lembranças sobre o ferreiro Salustiano, morador dos fundos da oficina onde trabalhava, numa esquina “escaldada pelo sol, fustigada pelo vento, guasqueada pelo chuva”. Essa linguagem rebuscada aparece logo na primeira página e segue em tom de fábula até o ponto na página 157.

Há por trás da forja de João Félix um rico elenco de personagens que sustenta o tom da novela. Os acontecimentos são “reais ou assim interpretados” ou, seja, o autor não inventa; apenas dá um jeito de apresentar a realidade de uma forma não tão crua, como já fizera em seus dois livros de contos, ambos prefaciados por AG Schlee, que sempre o incentivou a explorar ficcionalmente as histórias de sua infância. “A Forja de Salus” faz jus ao incentivo do amigo-colega:  é de cabo a rabo um livro primoroso, uma prosa muito boa, ambientada nos anos 40/50, pouco mais ou menos. E quem o prefacia é ninguém menos do que o fotojornalista Luiz Carlos Vaz, considerado em Pelotas e adjacências o mais fiel escudeiro do quixotesco profescritor Aldyr Garcia Schlee.

“A História de Abel” é um conjunto de crônicas sobre fatos e pessoas de Bagé. São narrativas extraídas de memórias de membros da família Vaz, começando no início do século XX e chegando mais ou menos na entrada dos 1970, quando o autor do livro decide migrar para Pelotas, onde está até hoje. Segundo Vaz, as crônicas foram escritas como registro simples, para rodar de mão em mão no âmbito familiar, mas o calhamaço caiu nas mãos do editor Alfredo Aquino e deu no que deu. O Abel do título é um remoto parente de Vaz que na virada do século XX fugiu para o Uruguai para não ter de casar com uma certa moça vizinha que havia seduzido. Com apenas seis páginas, a história tem vocação cinematográfica. As demais 44 crônicas honram o gênero: são breves, claras e temperadas pelo senso de humor do autor, que ilustrou algumas histórias com fotos tiradas de um baú intemporal – de seu arquivo, aliás, saíram as fotos que ilustram ricamente o livro “Fifty-Fifty”, com poemas de Maria Alice Estrella (Ardotempo 2016). Todas as narrativas de Vaz contêm algo do gatam o encanto imemorial das cidades do interior. Falam, por exemplo, de ruas que não existem mais, como a rubembragueana crônica “Rua das Laranjeiras, 183”, primitivo endereço residencial do autor, que desvela aqui muitas lembranças autênticas e, eventualmente, alguns exageros sinceros, estes sempre defendidos com sua frase-de-plantão: “Eu minto muito, mas sempre mostro a prova”.

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