Cedo ou tarde, vamos adotar o lockdown amplo, algumas cidades já começaram

Só existem duas estratégias para lidar com a Covid-19.

1) Uma é a do isolamento radical. Todo mundo se tranca em casa por dois ou três meses, quem se infectou desenvolve a doença, uma pequena minoria morre, a maioria sobrevive. O vírus não encontra novos hospedeiros, e desaparece.

Uns dois meses depois, as pessoas começam a sair de casa com muito cuidado, porque quase todo mundo continua vulnerável. Postos de fronteiras, portos e aeroportos têm que ser severamente vigiados, e quem entra tem que fazer quarentena. A qualquer momento, pode surgir uma segunda onda, e uma terceira, e todo mundo ter que se trancar em casa de novo. E assim vai, até ser criada a vacina.

A economia toma uma paulada violenta, e demora a se recuperar completamente, porque as pessoas hesitam em frequentar aglomerações, viagens internacionais ficam restritas etc. Por óbvio, o governo tem que injetar dinheiro maciçamente na economia para bancar a transição.

2) A outra estratégia é permitir que a doença progrida até que se alcance a tal imunidade de rebanho, o que ocorre quando há a infecção de algo como 50% ou 60% da população. A diferença entre o método preferido de Bolsonaro (o “libera-geral”) e o que está de fato acontecendo (esse isolamento “me-engana-que-eu-gosto”) é de velocidade. No “libera-geral”, o contágio dobra duas vezes por semana; “no me engana-que-eu-gosto”, o contágio dobra uma vez a cada 10 dias.

Na segunda estratégia, dependendo do método, o ritmo pode ser mais ou menos rápido, mas o destino é o mesmo: 50% ou 60% de infecção. Em um cenário sem colapso do sistema hospitalar, a letalidade esperada é da ordem de 1% de mortes. Um por cento de metade da população pode parecer pouco, mas, no Brasil, é 1 milhão de mortos. Com o colapso (não há como evitá-lo), o número pode ser significativamente maior.

Pode durar mais ou menos, mas quando passar, passou. Se houver mesmo imunidade (certeza científica não existe ainda, mas é de se esperar que haja, ou que, ao menos, os sintomas sejam leves em caso de reinfecção), não precisa nem esperar a vacina. É tanta gente imune que o vírus não conseguirá encontrar hospedeiros suscetíveis e desaparecerá (ou aparecerá esporadicamente, mas sem maior dano).

O impacto na economia não será menos violento. Ainda que Bolsonaro conseguisse “liberar geral” (que tomaria menor tempo), isso não ocorreria, porque, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acordarão para a realidade e quem puder vai se trancar em casa. Quem não puder, vai sair para trabalhar, mas não vai frequentar bares ou restaurantes ou jogos de futebol. O processo será o “me-engana-que-eu-gosto”, bem mais longo do que o do isolamento radical, com consequências econômicas brutais, e talvez ainda mais profundas e duradouras. Por óbvio, o governo tem que injetar dinheiro maciçamente na economia para bancar a transição.

Lockdown em São Luís do Maranhão

Este post é apenas um exercício intelectual. A perspectiva de centenas de milhares de mortes é insuportável. Mais cedo ou mais tarde, nós vamos adotar o lockdown de maneira ampla, e algumas cidades já começaram. Nosso erro é que nossa demora em adotá-lo — em grande medida resultado da politização do tema, mas também por um negacionismo obtuso — provocará mais mortes e maior dano à economia.

Espanhóis começaram a sair às ruas no fim de semana passado, depois de 48 dias de forte isolamento. Eu não sei vocês, mas eu estou em isolamento há exatos 50 dias. Se o Brasil fosse como a Espanha, eu poderia ter saído anteontem — mas, como o Brasil é o Brasil, estou resignado de que vou continuar sem sair de casa por pelo menos mais três meses.

No barato.

Ricardo Rangel | Face do autor

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