Minha avó Isabel

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O cômodo de minha avó materna, no tempo em que viveu em um pensionato para idosos, era o retrato de uma preciosidade que se decanta no declínio. Entre as paredes do casarão centenário, só havia lugar para o essencial: um armário, uma cama, um criado-mudo, uma mesa, uma cadeira, uma estufa para enfrentar o rigor do inverno.

Ao abrigo de um abajur, um rosário e um livro ladeavam um mimo: uma caixinha de música porta-joias. Ao giro dos dedos da avó, a bailarina de corda deslizava seu encanto pelas cavidades da relíquia, vazia de topázios ou esmeraldas.

Havia, ainda, o silêncio.

Como a geada, que no pátio restituía o viço a esmaecidas hortênsias, o silêncio recobria os inquilinos do velho sobrado com uma postiça dignidade, como se a contrição dos sentidos lhes restituísse o valor da existência, como se, depois de longo exílio, os moradores do lugar retornassem a si, à própria essência.

Porque os olhos da avó pendiam na espera, adentrávamos o quarto do pensionato numa suspensão de inquietude, feito ladrões. Da cadeira rente à cama, minha mãe esquadrinhava o semblante da anciã adormecida.

Em pé, à janela, eu observava lá fora o balé das hortênsias ao vento, o gradeado de lanças de ferro, que era o muro.

Quando a avó emergia do sono, às vezes o pânico se apropriava de seus miúdos olhos profundos.

“Calma, somos nós”, socorria-lhe a mãe.

Nos segundos enquanto a avó nos procurava na memória, era como se percorresse o catálogo de rostos de sua vida.

De volta a si, caminhava até uma vasilha com água. Espargia o rosto, envolvendo-o de zelo nas mãos, depois numa toalhinha. Erguia uma faca da mesa, cortava do bolo uma fatia, abria uma térmica, servia-se de chá, fechava-a, um giro a mais na tampa, para reter bem o calor. Então, em suaves ingestões, temperadas por familiares indagações, punha-se a saciar o apetite modesto dos idosos.

Cada movimento do seu corpo frágil se revestia de uma plenitude de intenções que se contrapunha à minha avidez por vencer o tempo, e me irritava e devolvia de volta à janela, à vida ebulindo lá fora.

Tudo se agravava quando a mãe procurava animar a avó com palavras. Eu mesmo ousei me utilizar do mesmo expediente. Porém, tudo o que eu dizia à avó me soou vazio; eu me senti ridículo e, no meio, me calei. Eu não acreditava em minhas próprias palavras. Não confiava no que diziam, mais atento ao que não diziam.

Por exemplo, não acreditava quando falavam que a avó via gente morta. Diziam na família que mórbidas holografias tomavam forma diante de seus olhos, solicitando-lhe audições.

Se podia conversar com os mortos, como se vivos fossem, eu me perguntava se ela estaria convencida da própria existência e, igual, da nossa. Seria possível que fossemos apenas espectros de vidas pregressas, prisioneiros de uma dimensão entre o tempo e o espaço?

Num daqueles encontros, a avó se pôs a ministrar-me um passe. Uma velha índia começou a dançar em torno de mim, emitindo gemidos musicais. Mesmo ciente do meu ceticismo, perdurou no ritual. No fim, envolvendo nas suas mãos minha cabeça, disse: “Tu precisas acreditar em ti”.

Naquele tempo eu ainda tinha uma vida inteira pela frente. A boca da rua me aprisionava às suas imposições, cobrando-me talentos até então ocultos de mim. Na invisibilidade da velhice, nada havia a ser provado pela avó.

Anos depois, deixei Pelotas. Não me despedi presencialmente da avó, que permaneceu no pensionato, comungando com as freiras, recebendo espectros e ouvindo-lhes as aflições.

Um dia, mudou-se para o apartamento de uma irmã de minha mãe. Num fim de tarde, aninhando-se no colo da anfitriã, no sofá, suspirou fundo, muito fundo e se foi.

Tantos anos passados, às vezes rememoro aquelas palavras distantes da avó, com a minha cabeça entre suas mãos. Mas o de que mais me lembro é de quando ela girava a corda da caixinha de música e a bailarina começava a rodar.

Tanta delicadeza num pequeno gesto, mesmo que na época eu não acreditasse muito, me fazia pensar em algo maior que os invólucros, maior que as aparências que vemos nos espelhos.

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