O ENCONTRO DO CIDADÃO COM A COVID-19

Tudo parecia que aquele encontro fora casual. O Cidadão, que representava todos os do mundo, mostrava temor em sua fisionomia. Condição que já há alguns meses vinha trazendo em sua aparência e gestos.

A Covid-19 se mostrava uma vencedora, não se sabe bem sobre o quê, mas deixava claro que estava assim.

”Bons dias”, falou a Covid – criatura de forma diferente de tudo – naquele encontro também diferente.

“Bons dias?” – “Só que seja para si, minha senhora, mas a situação do mundo não vai bem”, respondeu o Cidadão.

”Como assim?”, indagou a Covid. “Vocês têm vivido uma vida notável, onde os ricos cada vez vivem mais ricos.

”Mas”, atalhou o Cidadão, “nem todos nós somos ricos!”.

“Verdade, tenho visto muita gente dormindo na rua em pleno inverno, e muita gente sem ter o que comer. Vocês ainda se queixam da violência. Sabem o por quê disso? Do tóxico, dos roubos da gente de colarinho branco. Sabe que seus semelhantes roubam a merenda das crianças?”

O cidadão estava rubro de vergonha. E disse: “Sim, é verdade o que diz”. “Todos os dias os nossos jornais mostram, com fotos, gente de alta posição social sendo algemados e presos. Nós os punimos.”

Covid deu uma grande gargalhada e afirmou: ”De que adianta todo este carnaval se logo-logo uma medida hábil os liberta e já não voltam mais para a cadeia. Ou ficam presos em suas casas confortáveis com piscina e outras modernidades, enquanto a classe média luta para manter seus filhos em escolas públicas de má qualidade. Na terra de vocês enquanto alguns ganham até cem mil reais por mês, somando os penduricalhos, o homem simples, de uma classe média subdesenvolvida, luta desesperadamente até para comprar roupas para si, sua mulher e seus filhos. Morando mal, ou com várias prestações atrasadas em bancos, do apartamento de 60 metros quadrados que conseguiu financiar.”

O Cidadão estava acachapado. E de repente perguntou:  ”Mas quem é você? Como sabe tanta coisa da gente?”.

Covid respondeu: “Eu sou a resultante da sua Sociedade, bem como a de todo o mundo que você representa. Você sabia que na Europa e na própria América, países inteiros cometem injustiças para com outros povos, tudo por mero interesse político?”

O Cidadão falou logo :”Mas eles têm a Bomba Atômica, e com ela é que convivem numa sociedade que só defende os seus interesses políticos. O povo que se exploda! Não tenho vergonha de reconhecer isto”.

Sempre sorrindo, a Covid falou mais uma vez. “Por isto e pelo ‘progresso’ de vocês é que cheguei. Talvez para ficar!”

O cidadão pela primeira vez se mostrou apavorado: “O que disse? Isto seria o nosso fim. Aos poucos você irá nos levando, se não voltar para onde veio”.

”Ainda não sei”, retrucou a Covid, “Vamos ver como se comportarão depois que dermos a lição que estamos dando”.

O cidadão se ajoelhou e implorou: ”Por favor, deixe-nos. Tenho família. Não sou desonesto e sim trabalhador. Estes últimos meses tenho vivido muito nervoso e preocupado. Gostaria de ter uma relativa felicidade, de vez em quando”.

A Covid pela primeira vez mostrou alguma  comiseração: “Pois bem. Ficarei ainda algum tempo entre vocês, atuando, mas se realmente o mundo de vocês jamais voltar a ser como tem sido até aqui, partirei para sempre”.

Então o cidadão falou, meio que agradecido: ”Obrigado. Faremos uma campanha para que o mundo não seja mais assim, onde só prevalece a injustiça. Pode contar comigo que aqui estou representando todos nós humanos”.

A Covid finalizou, dizendo :“Vou dar-lhes um crédito de confiança. Não faltarei com minha palavra, e breve estarei partindo, até observar o comportamento de vocês até o próximo século. Adeus”.

Obrigado por participar. Comentários podem ter a redação moderada.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.