O UNIVERSO DE MONTEIRO LOBATO

O mundo da imaginação nos persegue a vida toda quando tivemos, quando crianças, a oportunidade de ler as histórias do universo a partir de um pequeno sítio no interior paulista, o Sítio do Pica-pau Amarelo.

Há cinqüenta anos, não em um sítio, mas em uma pequena Vila (Vila Olimpo, hoje Cidade de Pedro Osório/RS) às margens do Rio Piratini, acometido de um reumatismo que insistia em me retirar do convívio com as outras crianças, fiz a mais maravilhosa viagem pelo mundo, pelo cosmos, pelo passado glorioso dos gregos, pelo folclore fantástico do Brasil, pois dedicava-me, com oito anos de idade, a ler e reler os livros infantis de Monteiro Lobato.

Aprendi com Dona Benta e com o Visconde de Sabugosa a gostar de geografia, de geologia, de aritmética e de astronomia. Com as sagas de Emília pelo Olimpo dos gregos misturava a história com o fundo de quintal de nossas casas em Vila Olimpo (talvez o nome comum, Olimpo, deixava-me um pouco dono da história).

Recusávamos comer carne de porco, pois vinha-nos a lembrança do Marquês de Rabicó, um porquinho safado que vivia temendo a faca ameaçadora de Tia Anastácia, uma milagrosa cozinheira que conseguia tudo com seus bolinhos fritos, até conseguiu acalmar o terrível Minotauro quando este andou se aventurando pelo Sítio. Monteiro Lobato, inconformado com os rumos da política brasileira, estendeu às crianças um tapete de possibilidades de mudanças que somente estas poderiam entender.

Apostou na criatividade e imaginação dos pequeninos mergulhando ele próprio neste mundo infantil através da irreverente Emília, uma boneca de trapos feita para a Narizinho. Pela boca multifalante desta boneca discutia política, ciências, história, sociologia, enfim, colocava de forma entendível às crianças as suas discordâncias.

Com maestria e antevendo o futuro, dava ao universo uma visão não linear espacial e temporal, pois pela mágica ação de um pó, o pó de pirlimpimpim, viajava no tempo e para outros lugares, até mesmo para a Lua onde a turma do Sítio teve uma boa conversa com São Jorge.

A própria mitologia Grega não seria a que conhecemos na fosse a ação importante da Emília auxiliando Hércules a realizar suas façanhas, em número de doze que, como castigo a este imposto, tinham que ser cumpridas e, é claro, com a contribuição da bonequinha de pano que adquiriu vida, foram bem sucedidas.

Milhões de brasileiros poderiam estar escrevendo o mesmo. Muitas gerações foram formadas com uma base sólida nas leituras da obra infantil de Monteiro Lobato. Tenho saudade dos livros que este escritor não escreveu para a geração atual de crianças, que têm sua imaginação e criatividade negativamente afetada com os desenhos animados japoneses e outros que amortecem o cérebro de nossos filhos e incutem doses enormes de violência e desarmonia.

Por outro lado, tenho a esperança que surjam “Emílias” entre as crianças e jovens desta última geração, pois desta forma Monteiro Lobato não terá escrito em vão…

Neiff Satte Alam é professor Universitário Aposentado – UFPEL Biólogo e Especialista em Informática na Educação

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