A interiorização do vírus

Tenho evitado, mas hoje à tarde precisei sair. As ruas centrais me pareceram ainda mais vazias.

A progressão do número de casos e as primeiras mortes certamente tiveram impacto na movimentação da cidade. Depois lembrei: também é fim de mês. As pessoas estão sem dinheiro.

As lojas estavam vazias, inclusive lotéricas, esses redutos de esperança para quem sonha, um dia, ficar rico.

Os especialistas e a mídia dizem que o vírus está em processo de interiorização. É uma interiorização dentro de outra, feita de isolamento e introspecção.

Como todos, eu acredito que tudo passará, e, quando ocorrer, será nossa maior loteria. Mas o desolamento da rua, ainda mais em um dia cinzento, me fez pensar numa antecipação do fim da vida, aquele cheiro doce insuportável.

Pensamentos mórbidos são comuns em tempos de peste. Por exemplo, no livro Morte em Veneza, ela é o pano de fundo da história. Em meio à peste, o protagonista se desintegra psicologicamente, assaltado por pulsões reprimidas.

Creio que todos, em maior ou menor grau, experimentamos a mesma sensação íntima de infortúnio e limitação. Adoeceremos? Teremos vivido a nossa vida em plenitude ou estamos devendo dimensões a nós mesmos? Nossa vida faz alguma diferença? Ainda há tempo de virar o jogo?

Cada um reage de uma forma. Eu, por exemplo, pensei muito no meu filho, que mora longe. Postei um vídeo de música, Father and Son, do Cat Stevens. Lembrei da juventude dele, da vida pela frente, e da cidade em que vive, Brasília, no planalto, onde o inverno é quente.

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