Entrevista (1). Paula rebate Aliança Pelotas: “Procuro não me levar pela emoção, mas não posso ser insensível’

Conversei com Paula Mascarenhas, prefeita de Pelotas, ontem, quarta-feira (8), no fim da tarde.

Por videoconferência.

Vamos ao que interessa: o que ela pensa, e o que sente.

A entrevista foi dividida em duas partes. A primeira, esta, hoje. A segunda será publicada amanhã, sexta-feira (10).

Em primeiro lugar, obrigado por abrir espaço na agenda, porque sei que está complicada. Nossa conversa mesmo chegou a ser adiada. Dito isso, gostaria de saber o que está sentido no íntimo a pessoa Paula neste momento de pandemia, incerteza e medo?

É um momento grave, uma crise sanitária e econômica, uma questão importantíssima. Ver pessoas adoecendo, morrendo; ver empresários sem renda, tendo de demitir pessoas, tudo isso é muito difícil.

Eu tenho me sentido com o coração meio pesado, porque quero acertar, fazer o melhor para a cidade – e, infelizmente, não existe uma receita pronta para uma questão inédita, nova, como a da covid-19, que assombra o mundo.

Numa hora assim, reavivo a convicção de que a receita possível e melhor vem do velho Montaigne, o grande pensador do renascimento francês no Século 16. Ele me ajuda com sua filosofia de vida. Era um filósofo muito humano, um homem que dizia coisas muito próximas da vida da gente.

Pois ele, que também foi prefeito, de Bordeaux, sua cidade natal, linda por sinal, dizia que o importante é o bom senso. Eu tenho tentado fazer o mesmo, buscar o bom senso, o equilíbrio.

Já que falou nisso, emoção, a Aliança Pelotas divulgou nota outro dia com críticas duras à condução da pandemia pela prefeitura, pela senhora, após seu anúncio de que não recorrer da bandeira vermelha do contágio pelo coronavírus, uma delas dizendo que a senhora tem agido de forma emocional. O que pensa disso?

Tenho procurado pautar minhas decisões tentando não me deixar levar pelas emoções, evitando a sensibilidade extremada, porque não se pode perder a razão numa hora assim.

Tenho buscado também não me deixar afligir pelas emoções da arena política, da briga, da raiva, que também não são boas conselheiras.

O momento exige um esforço de serenidade.

E esse seu esforço tem dado resultado?

Como disse, procuro não me deixar tomar pela emoção, mas também não procuro ficar fria, insensível. Não está em mim ser indiferente à condição humana, sobretudo quando a vida está em jogo.

Eu sei que andam dizendo que me deixei levar pela emoção.

Dizem isso justificando que nós temos 70% de leitos de UTI disponíveis e que, portanto, a bandeira vermelha não seria necessária na cidade.

Em relação ao número de leitos, é verdade. Hoje são 70% leitos de UTI disponíveis. Acontece que esse é apenas um dos indicadores avaliados pelo Plano Estadual de Controle da Pandemia no Rio Grande do Sul. Há outros 10.

Por exemplo, de maio para junho, o índice de infectados em Pelotas aumentou 197%. Houve também o aumento exponencial de hospitalizações em UTIs e em leitos de enfermaria, especialmente nos primeiros.

Hoje estamos com oito internados. Já foram 10, mas, nas na última semana, pela primeira vez, a UTI estava num crescimento forte, passando de menos de 10% de ocupação para 30%. Houve também os óbitos, seis nos últimos 15 dias, fatos que influenciam fortemente na definição da bandeira pelo governo do estado.

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Uma curiosidade: A senhora consegue dormir bem?

Tenho conseguido dormir.

De vez em quando, acordo antes da hora habitual. Hoje (quarta-feira, 8), às 5 da manhã, estava acordada, com o olho estalado – daí em diante, não dormi mais, pensando. Mas, no geral, tenho conseguido dormir.

Não tenho passado noites em claro porque acredito que estou fazendo o meu melhor, todo o esforço para acertar, com uma disposição muito verdadeira e profunda, embora eu possa estar errando.

Tenho muito consciência disso também, que posso estar errada.

Surgem às vezes suspeitas sobre o real número de leitos para tratamento da covid em Pelotas. A senhora poderia dizer quantos leitos estão de fato disponíveis e ocupados?

Hoje temos 31 leitos de UTI, 8 deles ocupados.

Pelo nosso planejamento, no caso da UTI, teríamos mais 20 desses leitos na próxima semana, totalizando 51; ocorre que não há equipe médica para eles. Nesses meses todos, nós fizemos três chamamentos de médicos para atuar em 10 leitos do Centro Covid, mas não houve interessados. O Hospital Escola da UFPel, onde também temos leitos, fez um quarto chamamento, mas também não houve médicos interessados. Diante dessa dificuldade, não conseguindo equipe, eu posso não conseguir aumentar o número de leitos na proporção e no tempo que desejo. 

A ocupação dos 31 leitos de UTI está em 30%, sobram 70%. Essa folga não pesaria com força na definição de uma bandeira laranja? A senhora informou isto ao governo do estado?

O fato de termos 70% de leitos vagos é bom, mas não posso deixar crescer a ocupação. Preciso ser prevenida.

Além disso, enfrentamos o problema da escassez de medicamentos. Rio grande está entrando um colapso nos estoques, incluindo anestésicos para entubar. Assim, daqui a pouco, sem remédio, pode que Rio Grande precise transferir pacientes para Pelotas. Se ao mesmo tempo as internações aumentarem aqui, a oferta de leitos locais pode cair drasticamente, então, eu tenho de me precaver.

Não posso deixar a ocupação dos leitos chegar a 95% para tomar decisões. Por isso, depois de ouvir todos os membros do comitê de Crise, formado por pessoas de vários setores envolvidos na questão, eu decidi não recorrer da bandeira vermelha e fechar comércio e serviços não essenciais, adotando ainda algumas restrições extras mais duras do que as previstas no Plano para a bandeira vermelha.

Tem de ser assim, porque eu, como prefeita, preciso fazer todo o possível para evitar ver pacientes precisarem de respiradores e não os encontrarem.

O efeito do isolamento leva cerca de 15 dias (mesmo período da vigência da bandeira vermelha). Então, optei por ser prudente, parar enquanto a gente tem gordura para queimar, para que o efeito propositivo do atendimento ocorra a tempo. Infelizmente, isso é que o pessoal da Aliança Pelotas e outros não conseguem entender.

Uma das críticas da Aliança Pelotas é de que o Plano de Distanciamento Controlado não se restringe ao próprio rigor técnico. Que abre margem para decisões que veem como políticas. O que acha disso?

Não acho que minhas precauções com o contexto do quadro da pandemia na cidade e região não sejam técnicas. As informações técnicas propriamente ditas, somadas à avaliação que se faz delas, forma um conjunto essencial, ao meu ver, para fundamentar uma decisão que, no final, sempre é técnica.

Avalio números e contexto, e faço previsões. Tomara que eu erre na previsão, tomara que não seja assim como prevejo. Mas não vejo saída. Eu me sinto obrigada a me antecipar ao problema.

É preciso muita racionalidade, algo que está faltando para muitos dos meus críticos.

Acredito que a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, todos vulneráveis a uma pandemia desconhecida e de alta letalidade, é um elemento irrevogável que ajudar a balizar as decisões.

A senhora está dizendo que falta empatia na classe empresarial?

Não posso responder o que vai pelo íntimo de cada pessoa. O que sinto é que a maioria enxerga a escalada dos casos, das internações e das mortes como algo distante. Não posso ver assim. Forçosamente, sinto que preciso obrigatoriamente, também, me colocar no lugar das famílias que perderam entes queridos.

Como muitos municípios, 16 dos 22 que compõem a Zona Sul conseguiram manter a bandeira laranja, vários deles com recurso, ainda assim a senhora diria que o Plano do estado é rigoroso?

Talvez, se também recorresse, Pelotas tivesse conseguido reverter a bandeira. Não sei dizer com certeza.

Mas vê: como o próprio Plano estadual prevê a possibilidade de recurso dos prefeitos, então o rigor dele existe mas é relativo, abrindo espaço necessário para contemplar nuances municipais e regionais que precisam ser levadas em conta.

Pelos gráficos mais recentes do Plano, verifica-se, por exemplo, que a linha de infectados está quase vertical. Além disso, de novo, nós perdemos seis vidas na cidade nas ultimas duas semanas, e isso entra na conta do governo do estado, assim com as 22 mortes da Zona Sul.

Ou seja, eu tenho motivos para me preocupar, inclusive porque Pelotas é referência regional para internação hospitalar, podendo vir a receber pacientes de outros municípios, como já vem acontecendo. Eu falei com o Eduardo (Leite, governador), e ele concorda que o quadro em Pelotas está se agravando.

O que posso dizer é que, por tudo que ouço e vejo, e consulto muita gente, ouço a todos, eu tenho me sentido segura em minhas decisões.

Desculpe insistir. Não estou advogando para a bandeira laranja, só tentando esmiuçar a compreensão. Mas um Plano (de Distanciamento Controlado) que dá margem a prefeitos não recorrerem podendo fazê-lo e vice-versa não insere uma instabilidade incompatível com o que se espera de uma metodologia?

Talvez para os técnicos do Plano fosse ou seja incompatível. Para mim, como prefeita, que não domino tanto os critérios deles, não sei se seria.

Acho que não é tão simples assim a questão, seguir um rigor metodológico. Porque há uma dose de subjetividade, tanto que há a possibilidade do recurso, do contrário, não seria possível.

Acontece que, se eu acho que não é o momento de retroceder, como não acho que seja, não vou recorrer. Pois fazer isto mais tarde pode ser fatal.

Eu poderia ter recorrido por ter gordura para queimar (70% de leitos de UTI vagos hoje, além dos de enfermaria). Poderia também estar convencida da validade do recurso e, assim, recorrendo, passar a responsabilidade e o custo da decisão para o governo do estado. Mas eu não quis fazer isso.

A senhora não recorreu então por estar realmente convencida da necessidade da bandeira vermelha?

Talvez fosse mais fácil ter recorrido, os empresários talvez não tivessem ficado brabos comigo, e aí podíamos estar na bandeira laranja, ou não, mas aí a culpa não seria minha… Não acho essa uma postura adequada.

Eu só recorreria se tivesse convicção de que era o melhor, e eu acho que o melhor é retroceder. Tendo gordura, temos mais tempo para buscar alternativas.

O fato de 16 municípios da Zona Sul, vários deles fazendo uso de recurso, conseguirem reverter a bandeira vermelha para laranja, como São Lourenço do Sul e Canguçu, não acaba minando a sua estrategia e a sua própria decisão de não recorrer, já que pacientes infectados em outros municípios poderão ser transferidos para Pelotas, como já ocorre?

De alguma forma, efetivamente, sim, mina. Porque, se houver problema nesses municípios, desembocará aqui.

Por outro lado, reconheço que esses municípios têm menor incidência de casos. Mesmo assim, eu e o prefeito de Rio Grande (Alexandre Lindenmeyer) opinamos que eles não deveriam recorrer, porque pode agravar a situação especialmente em Pelotas e Rio Grande, por serem referências em internação hospitalar na região.

Infelizmente, só uns poucos não recorreram.

Me permita voltar ao tema dos leitos. A Aliança Pelotas diz que a prefeitura deixou de habilitar leitos junto ao governo do estado e que essa ausência poderia ter feito diferença, em benefício da bandeira laranja. Pode explicar isso?

Eles dizem que eu escondi essa informação. Não é verdade.

Nesse caso, o que houve é que minha transparência acabou me prejudicando, pois eu informei a eles da situação.

Não concordo que a falta desses leitos fizessem diferença para nós.

Eu expliquei, mas eles não entenderam.

Como disse, chegaram a dizer que eu estava escondendo leitos, o que é uma injustiça e, portanto, um absurdo.

Os 31 leitos de UTI foram credenciados no Ministério da Saúde e na Secretaria Estadual de Saúde. Ocorre que 10 leitos de UTI do Hospital Escola, lá eles são 20, e chegaram a 20 quando não havia nenhum ocupado.

O procedimento oficial é em partes: uma equipe é chamada para cuidar dos primeiros 10 leitos, e outra fica de sobreaviso para quando os outros 10 leitos precisarem ser ocupados, o que nunca havia ocorrido até agora.

Não tinha porque chamar uma segunda equipe, porque chamar significaria desperdiçar dinheiro público com estrutura ociosa.

O protocolo diz que quando a ocupação dos primeiros 10 leitos chegar a 8, ai se deve chamar a segunda equipe, obtendo, a partir de então, a liberação estadual para a nova leva de leitos. Foi o que ocorreu nesta semana.

Mas não há um problema justamente aí. Apesar de estarem credenciados, esses 10 leitos, ao deixarem de ser levados em conta pelo governo do estado na hora de definir a bandeira, não impôs a Pelotas a bandeira vermelha quando não seria preciso, talvez?

Por causa disso, alguns chegaram a dizer: “Mas então tu não estás preocupada com a vida das pessoas”.

Não é isso….

Nós não temos nenhum caso no RS de uma pessoa que tenha batido com a cara em uma porta de hospital, porque justamente o governo tem se concentrado em garantir recursos para todos os municípios na medida da necessidade. Agora (após a definição da bandeira vermelha) que chegamos a oito internações nos primeiros 10 leitos do HE, a segunda equipe de profissionais de saúde foi chamada e os leitos foram disponibilizados para regulação.

Pelo que a senhora acaba de dizer, e disse um pouco mais acima, a impressão que fica é de que o Plano do governo do estado mantém, junto aos indicadores, uma margem de manobra “política” no sentido de ver, no combate à pandemia, o RS como um todo, não mais regionalmente?

O que posso dizer, por exemplo, é que hoje (quarta-feira, 8) o estado chegou a querer mandar 15 pacientes de UTI para Pelotas. Eles estavam apreensivos e avaliando quantos pacientes eles iriam ter de internar no estado, porque, daqui a pouco, se não houver cuidado, não irá ter mais leitos para a cidade e a região.

Por isso digo que os empresários estão errados.

Porque, na hora que habilitasse aqui, com antecedência, a segunda leva de 10 leitos dos 20 do HE, só agora homologados (após a ocupação ter chegado aos primeiros 8 da primeira dezena), a ocupação podia ser muito maior em Pelotas, pela sobra de leitos, que poderia vir a ser ocupada por pacientes de outros municípios.

Ter mais leitos por antecipação poderia ser um tiro pela culatra. Ou seja, é uma situação complexa, que requer uma dose de subjetividade e previsão na avaliação final.

O que quero insistir é que o estado tinha e tem conhecimentos de todos os nossos leitos credenciados, eles apenas não estavam disponibilizados, por desnecessários até agora.

Acredito sinceramente que isso não chegou a nos prejudicar na contagem e definição da bandeira.

Pode ter prejudicado? Pode.

De qualquer modo, podia ter prejudicado por esse outro argumento que falei, de que se tivéssemos a segunda dezena de leitos mais cedo, já poderiam estar inclusive ocupados por pacientes de outras regiões.

A senhora considera que era inevitável a bandeira vermelha para Pelotas?

Não acho que era inevitável.

Como disse, sei que podia ter recorrido e tinha uma chance de manter a bandeira laranja.

O que achei é que a melhor decisão era a de manter a bandeira vermelha e ampliar as restrições, para poder garantir a nossa estabilidade.

PAULA: ‘SE FOR PRECISO, DECRETAREI LOCKDOWN’

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