Uma crônica do escuro da pandemia

Tudo que desejamos é que a vida volte a ser como era antes da covid.

Caminhei há pouco na cidade. Portas e janelas fechadas. Capim crescendo entre as pedras. Em algumas vitrines não há mais o que ver, os donos não aguentaram o isolamento.

Sabe quando, de repente, no meio da noite, falta luz em casa?

Alguém sempre acende uma vela para ninguém tropeçar. O estoque é pequeno e logo acaba.

Em geral, no início, reclamamos da CEEE. Depois, otimistas, nos convencemos de que “a luz já vai voltar”.

A conversa prossegue passando pelo humor, podendo, porém, tomar rumos inesperados, fluxos de memória inquietantes.

“Mas essa CEEE não vale nada mesmo!!!”, alguém corta.

Sabe quando um animal rói algo, a gente ouve, mas não sabe onde ele está nem como é? Aquele som que às vezes ouvimos, mas não sabemos de onde vem? Aquela sensação meio angustiante de não ter o controle do ambiente? Pois é.

Quando chega nessa altura, os tais fluxos de memória, que vêm com o rebaixamento dos estímulos, já se escafederam faz tempo para a toca, e na verdade começamos a achar que é bom mesmo que fiquem por lá.

Alguém reclama de novo da CEEE. Alguém permanece em silêncio. Alguém, por solidário, concorda.

Também sempre alguém surge com uma decisão de última hora. No caso, tentar resgatar uma vela sumida no inverno passado.

Momentaneamente o ânimo dos que esperam melhora, até que, da peça ao lado, a vasculhadora de gavetas começa a falar consigo mesma: “Mas não é possível, eu tinha certeza que tinha um toco de vela nesse armário!!!”.

Eu acho que estamos vivendo uma situação parecida na pandemia.

O que vem depois da frustração da procura, eu não sei.

Sim, eu sei que hoje em dia existem os celulares e suas luzes, mas os evitei porque, além de inutilizar a história, eles me fazem considerar o pior: que daqui a pouco alguém, do nada, se dê conta de que havia uma solução.

Uma que era tão evidente, mas que, no escuro, ninguém lembrou, por medo de perder o fio da meada.

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