Pelotas e o ‘caroço no angu’ no Plano das Bandeiras

Atualizado às 00h37 de 15/07

Caroço no angu é uma expressão de origem escravagista. Significa que “alguém estaria escondendo algo”. Ela tem origem em um truque dos negros feitos cativos dos senhores.

O prato deles era composto muitas vezes de uma porção de angu de fubá, mas, por solidariedade, uma escrava que servia aos demais escondia um pedaço de torresmo embaixo do angu.

Pois a impressão que ficou em relação a Pelotas, no caso da definição das bandeiras do Plano de Distanciamento estado, neste inicio de semana, foi de que um torresmo passou escondido.

Dias antes, o Amigos perguntou à prefeita se sabia que, ficando 15 dias numa mesma bandeira sem recorrer dela, como pretendia com a vermelha (risco alto de contágio), permaneceria automaticamente a terceira semana nesta mesma bandeira, com as mesmas restrições previstas, o que significaria manter comércio e serviços não essenciais fechados por 21 dias e não só 15.

Prefeita disse que essa regra não existia. E que, por isso, não iria recorrer da vermelha na primeira semana, esperando completar o ciclo de 15 dias, para então decidir se recorreria.

No dia seguinte, mudando de ideia, anunciou que recorreria neste final da primeira semana, porque descobrira que, se não o fizesse, não poderia fazê-lo quando completasse duas semanas, tendo, assim, de ficar forçosamente aqueles 21 dias em vermelha, o que, segundo ela, “seria sacrificante demais para o comércio e os serviços”.

Paula disse então que iria recorrer para bandeira laranja. E recorreu no domingo (12), apesar de ter dito, em entrevista ao site, que não o faria porque estava sem argumentos para tal.

Teor do recurso foi omitido

Ontem, segunda-feira (13), o Amigos tentou obter o teor do recurso do município, com o objetivo de publicar.

Em busca do recurso, fez contato pelo whats com a secretária de Saúde, Roberta Paganini.

A resposta dela foi que “estava na rua naquele momento, mas que mais tarde daria retorno“.

Não deu.

Paula: “Estou sem argumentos para pleitear a reversão de bandeira”

Como base em quais argumentos foi feito o recurso, não se sabe, já que Paula dissera que estava sem argumentos. Se não os tinha, como recorreu? Como o fez se os números da pandemia se agravaram enquanto a retaguarda de atendimento de saúde se manteve na mesma situação?

A prefeitura pode ter recorrido, mas o recurso só pode ter sido formal, já que estava sem argumentos. Teria a prefeitura recorrido sabendo que o recurso não seria aprovado pelo estado?

A sensação, inevitável, é de que não recorreu pra valer, não só pela ausência de argumentos, mas também porque Paganini, apesar de prometer retorno ao site sobre o teor do recurso, ter deixado de fazê-lo. Por isso, ficou no ar a impressão de um caroço escondido no angu.

Sugestão aceita!!!

A prefeitura divulgou que o governo do estado aceitou a sugestão de Paula para mudar a regra do Plano de Distanciamento que previa estender automaticamente por uma semana a vigência de uma mesma bandeira (nosso caso, vermelha) quando não houvesse recurso na primeira semana da decretação da bandeira.

Ao acatar a sugestão, o governador Eduardo Leite disse que Pelotas “terá direito a novo recurso no próximo final de semana”. Se a prefeitura recorreu agora e teve o recurso negado, não haveria necessidade de o estado mudar regra nenhuma, como disse que teria feito. É uma situação confusa, que permite questionar a metodologia do Plano.

A impressão foi de um benefício a Pelotas, pois, aparentemente, o estado, ao prever que uma cidade não possa recorrer quando fica 15 dias seguidos na mesma bandeira, tem (teria) por objetivo forçá-la a ficar mais tempo na mesa bandeira, POR NECESSÁRIO, pelo fato de a cidade AINDA APRESENTAR SITUAÇÃO DELICADA. Ocorre que a situação de Pelotas, hoje, é delicada. E nada indica que o quadro mudará nos próximos dias.

Então, pela lógica, MESMO RECORRENDO, COMO DIZ QUE RECORREU, Pelotas está “condenada” a permanecer pelo menos duas semanas com as restrições de bandeira vermelha e, provavelmente, mais uma semana, totalizando 21 dias, quem sabe mais tempo.

Agora Paula poderá recorrer da bandeira, AO MENOS FORMALMENTE, ao final da segunda quinzena, mas COM MARGEM POLÍTICA para mostrar boa vontade com o meio empresarial, que hoje a pressiona a retornar à bandeira laranja, mesmo que a realidade dos números não permita. Mesmo que, no fundo, ela talvez não queira retornar, pois sabe que a realidade, hoje, não permite.

Ao acatar a sugestão, o governador colocou um torresmo no angu pelotense.

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