“Onde tudo isso vai parar?”

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Sinceramente, não sei onde isso tudo vai parar.

Como ouvi outro dia, nossa vida anda parecendo um filme dos anos 90, Feitiço do Tempo. Um jornalista de um canal de televisão viaja a uma pequena cidade para cobrir o Dia da Marmota, evento anual que odeia.

Harold Ramim (Bill Murray) se instala num hotelzinho e começa a notar, a cada dia que acorda, que os mesmos acontecimentos do dia anterior se repetem, um loop diário permanente, prisioneiro ad eternum de um mesmo dia.

Hoje (quarta-feira, 15), numa entrevista, João Gabbardo, coordenador executivo do Centro de Contingência da Covid-19 do Estado de São Paulo, disse que os próximos dois meses da pandemia no Brasil serão muito difíceis. Até a primavera? Se for assim, teremos atravessado três estações, um tipo de Via Crucis.

Rigorosamente, não está fácil para ninguém, em qualquer profissão, sem falar nos desempregados e nos desalentados, todos sem horizontes. Há noites, por exemplo, em que minha vontade é de dormir para sempre, nunca mais acordar, só para não ter de enfrentar mais uma jornada de cobertura das marmotas, com aquelas caras de paisagem e aqueles dentinhos obcecados em roer. Acontece que a gente acorda.

Quem trabalha com notícia, depois dos profissionais de saúde, está no grupo dos que sofrem um pouco mais, talvez. O meu caso é mais confortável que o dos médicos e enfermeiros. Trabalho em home office, distante do núcleo do problema, embora atingido por ele. Há anos vivo uma espécie de quarentena, sozinho no escritório, ao ponto de ter me familiarizado com a solidão.

O problema é ter de interiorizar o drama, ser obrigado a tentar raciocinar antes de escrever sobre os horrores, as truculências, os absurdos, enfim, as imperfeições. Em certos dias, sinto uma tremenda angústia, uma ausência, como talvez tantas pessoas. É um pouco como em uma guerra. Há momentos de relativa calma, mas, de vez em quando, soa a sirene alertando da aproximação de bombardeiros inimigos, e como que procuramos o primeiro abrigo até que o ataque cesse.

Com a progressão do número de infectados e das mortes, inclusive de pessoas que conhecemos, a ansiedade se intensifica. Todo santo dia tem o tal Dia da Marmota, angustiante como quando, querendo acordar de um pesadelo, parece que não vamos conseguir.

Em geral, quando escrevo, procuro sintetizar o pensamento com o objetivo de dizer mais com menos palavras, deixando de propósito sob as palavras coisas não ditas, acreditando que o leitor perceba. Aprecio a síntese, do mesmo modo que o extrato de um vidrinho de perfume. Nem sempre acho que consigo, como talvez não tenha conseguido neste. Ocorre que, desde sempre, sinto necessidade de me expressar.

Chaplin, o pequeno grande homem, em sua autobiografia, diz que a representação artística vem da infância e tem a ver com uma necessidade psicológica de ativar as emoções. Num trecho, registra mais ou menos assim: “Quando crianças, gostamos de fingir de mortos em lutas de mentira. Tomamos um tiro e caímos desacordados por alguns momentos”. Para ele, esse mecanismo do comportamento está na base do cinema. Quando assistimos a um filme de terror, mesmo sabendo que é de mentirinha, buscamos mobilizar em nós o medo, a surpresa, e por aí outras emoções, e assim é, deduzo, porque essas emoções nos lembram que estamos vivos. O jornalismo parece movido pelo mesmo mecanismo.

Chaplin era uma pessoa muito sensível, com algo de messiânico na personalidade. A mãe morreu louca, a avó também. No filme sobre sua vida, Anthony Hopkins faz o papel de seu biógrafo e, numa cena, pergunta ao Charlie velho até que ponto os genes da loucura lhe influenciaram a criatividade para dar vida a uma obra única em forma artística e sentimento, sem ser vulgar. O ator que interpreta Chaplin (Robert Downey Jr.) responde: “Eu não sei. Talvez… Uma coisa sempre me acompanhou: a sensação de que, por mais que procurasse fazer uma obra de arte, e conseguisse, algo me dizia que eu não havia sido bom o bastante, que alguma coisa me faltara para a perfeição. Que no fundo eu era um vagabundo. É humano…”.

Na excepcionalidade da pandemia, esse sentimento de “incompletude” de que ele fala, essa inconformidade com a vida, quando se repete, que Feitiço do Tempo plasmou, talvez comum a todos, parece, hoje, um nervo exposto.

3 thoughts on ““Onde tudo isso vai parar?”

  1. Belíssimo texto “Onde tudo isso vai parar”!. Espécie de tentativa de elaboração de um “certo absurdo” por nós vivido hoje (e talvez de outros absurdos já experimentados por cada uma e cada um de nós na vida), que nos chega como via para seguirmos acreditando e criando
    possíveis. Parabéns!

  2. Uma das mais emocionantes passagens da vida de Chaplin, já famoso, saiu pelos fundos do hotel de luxo, tomou um taxi e foi a Pownall Terrace, visitar o lugar onde se criou, um cortiço pobre. Fez-se a reflexão de que milagre havia ocorrido em sua vida de mudar sua história.De outro lado, ,lhe doía a impotência de não ter podido socorrer a incurável doença materna e a ausência do pai. Chaplin, em sua vida e obra, pouco fala do pai que se faz representar pelas figuras de autoridade tendo como alvo o desprezo e deboche. Sua figura de vagabundo mistura carinho e esperança. Venceu a depressão da mãe e o descompromisso do pai. O vagabundo é generoso na música, no afeto e no incurável romantismo. Todos seus filmes retratam uma luta do bem com o mal. Tenho em conta que a biografia de Charles Spencer Chaplin deve ser lida como um livro de profundo saber.

    1. Teu comentário foi fiel aos fatos. Concordo com o que observas tão bem, com boa memória e evidente afeto. Um abração, Paulo. Valeu!!!

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