Um dedo, uma pata, um galho de prosa

Você pede desculpa a cachorro quando, sem querer, pisa no rabo dele? Eu peço. Dá boa noite a ele na hora de dormir? Eu dou.

Diz “saúde!” quando ele espirra por causa do álcool em gel que você insiste em usar como lustra-móveis? Eu digo.

Chama de filho? Pois é, pertencemos à mesma irmandade.

Se os cachorros latem para se comunicar conosco, sem medo que os caninos à sua volta os chamem de doidos, por que haveríamos nós de temer o julgamento dos humanos quando usamos nosso idioma para nos comunicar com outras espécies?

Falar com cachorro é o mais sensato. Insano seria uivar, latir de volta.

Os cachorros nos entendem mais que nós a eles. Podem até não concordar conosco, mas aí seria pedir demais. Leem nossos sinais, das mensagens olfativas à linguagem corporal. Sabem quando escondemos más intenções, do tipo camuflar um comprimido num pedaço de pão ou usar um brinquedo para atraí-los à armadilha do banho.

Se “há entre as pedras e as almas / afinidades tão raras”, como escreveu o poeta Antonio Cicero, imagine as que haverá entre a alma de um cão e a pedra que habita o coração de um homem. O cão sabe o que se esconde nesse abismo, porque é um ser superiormente dotado de virtudes.

Ninguém perdoa tão facilmente quanto um cão. Nem ama tão a troco de nada. Nem é tão fiel. Ao cão tampouco ocorre confundir fidelidade e exclusividade sexual — o cão, ao contrário de nós, tem essa sabedoria.

“Os deuses são deuses porque não se pensam”, disse outro poeta, o Fernando Pessoa. O cachorro não se pensa; nós nos pensamos demais. O cão apenas é — nós nos debatemos entre ser e não ser, entre o ser e o ter, entre o ser e o nada.

Já fui de falar com gato, que também é bom ouvinte. Um pouco mais exigente em relação ao assunto, e não tão paciente quanto o cão, mas igualmente um interlocutor extraordinário.

Fossem psicanalistas, o cão seria pragmático, comprometido com a cura; o gato, lacaniano, ensimesmado em jogos de palavras e conjecturas. O cão é sempre cão, jamais recolhe as garras — o gato tem momentos de fera e de almofada.

Assim como o príncipe Charles e o Roberto Carlos, eu também converso com planta. Elogio a pitangueira florida, digo aos pés de morango que eles estão demorando muito para dizer a que vieram, explico ao manjericão que não vai doer nada, é só uma folhinha que eu preciso para a salada.

Se me pego falando cá com meus botões, por que não falaria com os botões da maria-sem-vergonha cuja semente veio no vento e, na falta de um jardim, sentou praça na floreira da varanda? Falo com bicho, coisa, mato. Até com gente.

Li em algum lugar que falar com plantas só é problema quando elas começam a responder. Por via das dúvidas, evito as do tipo que puxa papo, dá ideia e quer me fazer a cabeça. Mantenho prudente distância desse tipo de vegetal. Até porque o cultivo é crime previsto no Código Penal.

Eduardo Affonso

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