Hallal responde a médico: “Pasmem, a terra não é plana!”

Doutor em epidemiologia e reitor da UFPel, no leme de uma pesquisa de incidência do novo coronavírus no RS, Pedro Hallal fez um artigo de “resposta” a outro artigo, assinado pelo médico Júlio Lima. Veja, no final, o artigo de Júlio e forme sua opinião

Neste final de semana, tive acesso a um texto intitulado “Pasmem, é a Ciência!”, de autoria do Dr. Júlio Pereira Lima, médico gastroenterologista e, também, pesquisador, como se conclui a partir dos 143 artigos científicos reportados no seu currículo Lattes. Em resumo, o colega critica as políticas de distanciamento social e as classifica como o maior erro de gestão de saúde da história do Rio Grande do Sul.

Tendo em vista a gravidade da acusação, resolvi olhar os dados, como qualquer pesquisador faria. E, pasmem, eles contam uma história bem diferente.

Até hoje, são 1.252 óbitos no Rio Grande do Sul, numa população de 11,3 milhões de pessoas. Isso significa que a mortalidade é de 110 por 1 milhão de habitantes. Para fins de comparação, no Brasil, a mortalidade é de 366 mortes por 1 milhão de habitantes. No Amazonas, são 763 mortes por 1 milhão de habitantes. Mas a melhor comparação é com a Suécia, onde o epidemiologista Anders Tegnell já veio a público admitir o erro de defender o isolamento vertical. Lá são 556 mortes por 1 milhão de habitantes.

Eu já deveria ter imaginado, quando notei que o referido texto começa falando de um tal pânico imposto a população por políticos, pela mídia e por parte dos médicos. Apenas acho que, talvez, o tal medo não tenha sido imposto pelos políticos, nem pela mídia, nem pelos médicos, mas sim pelo vírus, ou pelas mais de 606 mil mortes causadas por ele até hoje. Talvez a população esteja assustada ao ver que a tal “gripezinha” já matou mais de 78 mil pessoas no país.

Ao longo do texto, há também uma tentativa de usar um argumento de autoridade, quando é citada a profissão “Educação Física” como se não fosse capaz de emitir opinião sobre a pandemia. Seria como dizer que, em geral, os gastroenterologistas (especialidade do meu pai, diga-se de passagem) entendem bem menos de pandemia do que os epidemiologistas. Sim, entendem muito menos, o que não significa que não possam opinar.

Para tentar provar sua tese contra o isolamento social, o Dr. utiliza argumentos cientificamente equivocados, como quando afirma que apenas uma de cada dez pessoas com coronavírus tem sintomas. Talvez o colega tenha confundido os percentuais: na verdade, de acordo com o EPICOVID19, nove de cada dez pessoas com coronavírus apresentam sintomas, mesmo que leves. Além disso, diferentemente do que consta no texto, a letalidade estimada é de 1%, e não 0,1%.

Ao afirmar que qualquer estudante de segundo ano de Medicina sabe que uma epidemia só acaba quando 20-60% da população tiver anticorpos, o Dr. esquece de confrontar sua teoria com a realidade.

Em quase 100 países do mundo, as mortes por coronavírus já estão em declínio, e em nenhum desses lugares há evidências de que a tal imunidade coletiva tenha sido atingida. Por que então as mortes começaram a declinar? Pasmem: é por causa do distanciamento social.

O Rio Grande do Sul entrou em distanciamento social cedo, o que fez com que a circulação do vírus no estado fosse muito mais baixa do que em outras regiões do Brasil. Exatamente por isso tivemos menos casos do que outros lugares e milhares de vidas foram salvas. Tivéssemos ouvido os epidemiologistas, teríamos feito um “lockdown” de verdade, como fizeram a maioria dos países da Europa, e hoje estaríamos com uma vida muito mais próxima do normal, inclusive com a economia e os empregos restabelecidos.

Se agora o número de casos e de mortes aumentou no Rio Grande do Sul, não é por culpa do inverno (como já nos mostrou a gélida região Norte do Brasil), mas sim por culpa da flexibilização do distanciamento social.

Reabrir o estado com a curva em ascensão é um erro que não precisaríamos cometer.

Enquanto não tivermos vacina, temos duas opções: ou deixamos a imunidade coletiva ser atingida naturalmente, às custas da vida de milhares de pessoas, ou fazemos o que outros países fizeram com sucesso: testagem massiva, busca ativa de casos e distanciamento social para colocar a curva na descendente. A escolha é nossa.”

Pedro Curi Hallal
Professor de Educação Física (auto-identificado assim em seu artigo)

Lockdown: crença ou ciência? Por Júlio Pereira Lima

Pasmem, é a Ciência!

Júlio Lima, médico

O planeta, em geral, e o RS, em particular, experimentam desde março um pânico imposto a população por muitos políticos, pela mídia em peso e por uma parte de médicos possivelmente bem intencionados em relação a pandemia do novo coronavírus.

Nós médicos quando prescrevemos uma conduta sempre devemos avaliar riscos e benefícios do tratamento indicado. Não podemos prescrever um tratamento que reduza a mortalidade de uma dada doença (um câncer, por exemplo) em talvez 30%, se os tratados possam ter efeitos colaterais insuportáveis ou mesmo mortais em quantidade similar a essa.

Chegou-se ao ponto de leigos discutirem contra e a favor de tratamentos para a covid-19 e a conduta médica perante a pandemia passou a ser ideológica, assistindo-se médicos falsificarem pesquisas (Lancet), administrar doses mastodônticas (cavalares foi pouco, no estudo Brasileiro de Manaus) no intuito de “prejudicar” trabalhos com o uso de uma droga: a hidroxi-cloroquina (HCQ).

As outras drogas, que são prescritas pela ralé da Medicina, ivermectina e corticoide, são de “centro-direita” e admissíveis em alguns pacientes, menos , é claro, nos pacientes do SUS. No outro lado, há um grupo de médicos especialistas em cardiologia, bioestatística, AIDS, oncologia, professores de educação física, etc, que defendem a quarentena como a salvação de vidas.

É a ciência, bradam! E os jornalistas os entrevistam e acreditam.

Cheguei a “ver” um jornalista pedir desculpas aos ouvintes/leitores por entrevistar um médico e político que pensa diferente, pois tomar conhecimento de suas opiniões poderia colocar a população em risco. Afinal, “fique em casa “ é cool e pela vida. Os que divergem dessa opinião devem ser calados e espezinhados a todo custo.

Nenhuma sociedade médica em suas diretrizes de tratamento para uma dada doença deve defender o uso de drogas com nível de evidência C (Traduzindo: “a melhor nota é A e a pior é D”) , apenas A.

Como justamente é o caso da HCQ e da ivermectina no tratamento da COVID-19. O médico do paciente deve pesar os benefícios nos estudos que leu versus os baixíssimos riscos dessas drogas nas doses adequadas (não mastodônticas), uma vez que elas têm décadas de emprego clínico seguro. Sem dúvida, prescrevê-las não é cientificamente comprovado. Porém, isso está longe de ser fake-news, como querem muitos jornalistas e alguns médicos cool.

O RS em 15/3/2020 com NENHUMA morte por covid-19 optou pela quarentena/ distanciamento social horizontal seguindo conselhos cools., modernos, “científicos” em” prol da vida” . Infelizmente, a conduta empregada de científica não tem nada e de medieval tem muito.

Embora possa parecer lógico que se não entrarmos em contato com ninguém, a doença desaparecerá com os primeiros mortos, isso é impraticável pois profissionais de saúde, frentistas, vendedores e produtores de alimento entre outros, não podem parar e de cada 10 infectados apenas um tem sintomas, o que mantem o ciclo da epidemia.

Qualquer estudante de segundo ano de Medicina, mesmo EAD como os atuais, sabe que uma epidemia só acaba quando 20-60 % da população tiver tido contato com o agente ou vacine-se a população contra o mesmo. No caso do coronavírus, essa chamada imunidade coletiva parece ser a cada novo estudo publicado inferior mesmo a esses 20%.

A prestigiadíssima “Revisão Cochrane” sob encargo da OMS avaliou o valor da quarentena/distanciamento social horizontal/lockdown na pandemia de covid-19 e outras epidemias virais e concluiu que esta conduta é evidência D (“ nota pior que a cloroquina”), com muito baixa evidência que funciona e que todos estudos realizados até então eram de muito baixa qualidade não devendo jamais servir para diretrizes societárias. E agora, e a ciência?

Segundo a Cochrane, o distanciamento social adotado no RS poderia reduzir a mortalidade da doença em 30% caso o vírus “precisasse “ contaminar 70% da população e tivesse uma “capacidade de transmissão” de 3. Por sorte nossa, talvez nem 20% precisem ser contaminados e a transmissão do vírus é muito provavelmente inferior a 2 na média.

Pasmem! Os “ cientistas puros” (não terraplanistas ! ) nunca mencionaram que , se o distanciamento social funcionasse (repito, caso funcionasse) sua grande função talvez não fosse reduzir o número de mortos pela doença, mas sim, distribuí-los ao longo do tempo. E é exatamente isto que estamos assistindo em nosso país e estado.

Nosso estado começou a quarentena em pleno verão (bactérias adoram verões,vírus são apaixonados por invernos) e o resultado do primeiro estudo de prevalência (da UFPEL) mostrou que com mais de 20 dias de quarentena a doença praticamente inexistia no RS. 2/4000 ou 0,05% de positivos.

Pasmem!

Nesse momento foi mantida a quarentena o que poderia ter uma de duas explicações: preconceito (não acreditaram no próprio estudo), o que inicialmente é perdoável em ciência ou erro de interpretação dos resultados, o que é imperdoável em ciência, empurrando a epidemia para o inverno, o que indubitavelmente consistiu no maior erro de gestão de saúde da história do RS.

Entre 15/3 e 31/5, os médicos assistiram a maior epidemia de saúde de nossa história. Hospitais vazios UTIs vazias, ambulatórios despovoados.

Os jornais assustavam a população com 70-80% de lotação de UTIs, quando a média histórica fora do inverno é superior a 95%. No inverno ultrapassa 100%. E a cada rodada de divulgação da “pesquisa de Pelotas“, é registrado uma redução de pessoas que cumprem o distanciamento social (o censor do Pravda da quarentena não percebeu e divulgou esses dados!).

É óbvio: são 4 meses e seguramente 2 deles desnecessários, mesmo para os que acreditam na Medicina Medieval! Fecharam-se escolas, quando comprovadamente crianças transmitem o vírus 10 vezes menos que adultos e a mortalidade entre elas é inferior a 1 para 1 milhão. Entre adultos provavelmente seja de 0,1% (1 em mil).

Mais grave ainda, o artigo da Cochrane enfatiza que não avaliou os efeitos colaterais (sociais, psicológicos, físicos, aumento de gravidade de outras doenças crônicas e agudas,desemprego etc…) da conduta tomada. Interessante que os muito preocupados com os efeitos adversos da HCQ, deveriam saber que de todas condutas existentes, a, de longe, mais carregada de efeitos colaterais, inclusive mortais, é a quarentena.

É sabido com evidência grau A (“nota máxima”) por estudos em vários países que quanto maior a taxa desemprego de uma dada população, maior a mortalidade em sua população economicamente ativa. No Brasil, estudo avaliando mais de 5.000 municípios entre 2012 e 2017, verificou que 30.000 pessoas morriam a mais no ano seguinte a cada ponto percentual de aumento na taxa de desemprego. Os primeiros 2 meses (até 15/5/20) de quarentena custarão a vida de aproximadamente 2.800 gaúchos entre 18-60 anos até 15/5/2021, caso nosso estado mantenha a média nacional de desemprego. Isto é evidência grau A. É ciência.

Não entrarei no detalhe dos estimados 50.000/60.000 casos de câncer que terão retardado seu diagnóstico e, consequentemente, impedido sua cura em nosso País.

Um determinado serviço privado de radiologia de Porto Alegre diagnosticava em média 14 casos por mês de câncer de mama. Em abril foi zero. Em maio foram 2. Em 2021, teremos provavelmente 26 mulheres a mais com câncer de mama incurável diagnosticadas na nossa cidade. E a ciência?

Não vou comentar o aumento nas taxas de feminicídio, depressão, suicídio e outros incontáveis danos psicológicos causados pelo medo dos políticos em lhes serem imputados mortes, da histeria da grande mídia (que tem, e muito, parcela de culpa) e da pseudo-ciência evidência D dos ouvidos por nossos governantes em Porto Alegre e RS.

Prof. Dr. Julio Pereira Lima , MD, PhD , FASGE.
Prof. Associado do Serviço de Gastroenterologia da UFCSPA/ Santa Casa de Porto Alegre.
Chefe do Serviço de Endoscopia Digestiva da UFCSPA/ Santa Casa de Porto Alegre.
Presidente da SIED (2016/2018).
2019 German Endoscopy Society Honour Award Carrier
2019 DGVS-Sektion Endoskopie Ehrenpreisträger

7 thoughts on “Hallal responde a médico: “Pasmem, a terra não é plana!”

  1. Me admira as pessoas sempre jogarem os números de mortes na conta deste vírus. Sou do RS, vejo muitos morrendo de outras doenças, mas com COVID. E as cidades são obrigadas a declarar morte por covid., este é o protocolo. As pessoas estão morrendo, mesmo com UTI’s disponíveis, ou seja, o achatamento não salvou essas pessoas. Estão MORRENDO como acontece em todos anos. Eu olhei as estatísticas de mortes no estado. Vou citar a pneumonia, ao longo dos últimos 5 anos, sempre teve aumento de óbitos, e neste ano esta 12% mais baixo que o ano passado, e está assim com praticamente todas doenças respiratórias.

  2. O argumento fundamental do artigo do professor doutor precisa ser desmontado e não foi aqui.
    Ele afirma que é “evidência de grau A” (a mais alta na ciência) a relação entre desemprego e mortes. Entretanto se você pesquisar pelo artigo na qual ele se baseia a argumentação não há uma linha sequer afirmando esse grau de certeza de causa e efeito, Trata-se de uma correlação. Mesmo assim, supondo que seja verdade, o professor doutor cai na mentalidade utilitarista e é necessário então perguntá-lo: quer dizer então que você mataria uma pessoa para salvar outras cinco?

  3. Que bom que o Dr Pedro Hallal falou exatamente o que pensei, e o comentário acima, do Wagner Brito, perfeitamente comentou. O brilhante Currículo Lattes do Dr Julio não significa que ele tenha empatia e bom senso. Me admira que um pesquisador negue dados científicos!! O texto do Dr Julio Lima me foi enviado por whats do Paraná. Com certeza vai andar por aí nos grupos. Felizmente (aleluia), cheguei a este interessante amigosdepelotas.com . Parabéns à Universidade Federal de Pelotas pelo trabalho que tem feito.

  4. Não sei se os médicos que defendem remédios para vermes e HC, são egocêntricos ou tem sérias falhas de caráter, em ambas hipóteses são, socialmente perniciosos. Não ouvi ninguém afirmar que distanciamento serviria para curar, mas sim, por aritmética pura, regular o fluxo nos serviços médico-hospitalares. quando gastroenterologistas, dermatologistas, entre outros, no século XXI, arriscam-se em áreas que não tem formação, só podem fazê-lo por uma ou ambas hipóteses citadas, que se saiba a medicina de ha muito é feito a partir de evidências, as quais geram protocolos, que são constantemente revistos, gerando novas evidências, que por sua vez geram novos protocolos. Isso é garantia ao cidadão de que não servirá de cobaia para, p.ex., à um gastroenterologista que acordou com vontade de fazer experiências em virologia. É zombar da inteligência das pessoas, querer provar que aquilo que foi feito na Inglaterra, Alemanha (mecas de especialização médica), e demais países que são “Alma Mater” da ciência, está errado e que o certo é aquilo que, não especialistas, acham.

    1. Pois é Britto.Qual a formação em doenças infecciosas ou em saúde do missivista acima?Disseste bem : para regular o fluxo de atendimento hospitalar. Não para salvar vidas. Como quarentena não é remédio , não tem efeito colateral. Este pensamento pouco informado levará a muitas mortes por outras causas.Fiquem em casa , mas sem perceber seus ordenados.

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