Futebol com torcida de videogame

Pela primeira vez no futebol “de verdade” ouvimos gravações de torcidas vibrando, ao invés de torcedores presentes. Uma mistura de estádio de futebol com técnica de videogame, aquele som da torcida vibrando com os lances do jogo.

Uma espécie de “antecipação do futuro” é o lado mais curioso dessa pandemia, que já acelerou coisas importantes como a Telemedicina. Tentar “adivinhar o futuro” é uma das coisas que me fascina e venho trocando ideias com amigos há muito tempo. Há vinte anos atrás, por exemplo, falávamos sobre a Memética, a explicação do poder dos memes, que hoje fazem parte do nosso cotidiano. Um dos amigos “futuristas” aposta que o mais revolucionário agora é a impressora 3D. É verdade, mas eu acredito que um grande impacto também será a Holografia no futuro, para eventos artísticos públicos.

Você já imaginou um grande espetáculo ao vivo onde ao invés de um cantor “presencial” fosse apresentado um cantor em holografia? Um show “ao vivo” do Elvis Presley, ou da Elis Regina, por exemplo. Eu imagino que isso vá acontecer no futuro e vá criar uma nova espécie de eventos, espetáculos, onde ícones do passado poderiam “reviver” nos palcos. Ainda estamos longe disso mas já existem demonstrações de holografia em Porto Alegre, como os que já ocorreram em eventos na Fiergs.

Sempre nos fascina o que não temos e a tecnologia que cria realidades virtuais é empolgante por possibilidades quase infinitas que ela pode criar. O paradoxo desse “novo mundo”, cada vez mais virtual do que presencial, é que o futuro tende a nos trazer também uma grande “revalorização” do presencial, como também passou a acontecer durante essa pandemia.

Um colega que viveu anos em Paris, durante sua especialização em Psiquiatria, observou que a liberdade e a individualidade já são conquistas tão consolidadas na França que o que está sendo revalorizado lá é o sentimento de família. Na história da Europa e do mundo ocidental o “maio de 68” na França foi um marco das liberdades individuais, entre outros valores humanistas e de rebeldia de costumes que marcaram os movimentos civis de 68 lá. Pois se foram os primeiros a se livrar do “conservadorismo” como uma  imposição moralista, agora voltam a valorizar valores familiares, não por obrigação, mas por sentirem falta, mesmo.

O virtual vem exercendo um poder crescente entre nós e isso tende a aumentar muito ainda – cada vez é mais difícil falar com alguém sem a pessoa olhar o celular toda hora. Mas esse “choque de futurismo virtual” traz no seu bojo o oposto, a falta do contato presencial. A pandemia nos mostrou como o presencial faz falta.

Montserrat Martins é médico e escritor

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