Ainda não sei o que pensar

Não é novidade. O noticiário está dominado pela covid, pelo medo da morte, uma cruz que estamos carregando.

Aqui e ali noticiam uma vacina, um medicamento, porque, deduzo, nunca é bom anular a esperança, já que é dela que todos vivemos. Mas o tom predominante é sombrio. Lá se vão cinco meses de restrições, uma suspensão da vida longa demais.

Há quem se ressinta do noticiário, até mais que da pandemia, protestando que a variedade das ações humanas desapareceu da imprensa. Há boa dose de razão nisso. Não digo ‘total’, pois a vida, por mais que tentem, não cabe num jornal. Desde logo, quero dizer que, mesmo sendo jornalista, eu me ressinto.

Converso sem preconceito com várias pessoas, todos os pensamentos. Elas me ajudam a raciocinar, se é que ainda consigo fazê-lo. Alguns veem exagero no pânico e culpam a imprensa. Mais sóbrios, não chegam a enxergar no vírus uma conspiração comunista. Mas insistem que os números da covid, comparados a taxas de mortalidade de outras doenças, e até a outras regiões do Brasil, deveriam convencer de que não é caso para desespero.

Um deles diz: “Em menos de cinco meses Pelotas teve 14 mortes por covid. Ora, isso está dentro da normalidade, sobretudo no inverno, quando ocorrem mais mortes por síndromes respiratórias. O que significam 14 óbitos numa população de 340 mil habitantes?”

À primeira vista, não parece de fato, local e estatisticamente, uma mortalidade alta, embora não tenhamos notícias de quantas pessoas vêm morrendo de outras doenças neste ano na cidade e região, em comparação com outros anos.

Vejo e ouço outros argumentos no mesmo sentido de conter o pânico, como os do médico Júlio Pereira Lima, que se vem contrapondo ao reitor dr. em epidemiologia Pedro Hallal. Leigo, procuro absorver tudo sem paixões, curioso com o fenômeno, inclusive comportamental.

Na hora em que estou ouvindo ou lendo os que minoram o problema e veem nas medidas restritivas um absurdo, ocorre de eles me convencerem, de me parecerem lógicos. Logo, porém, volto a me sentir inseguro, como se os argumentos tivessem um furo, como se ainda não houvesse volume de conhecimento suficiente para alguém ser categórico, e imagino que seja assim com muitas pessoas. Segundo Elis Radmann, do IPO, “70% dos gaúchos estão com medo”. Disso, eu não duvido.

Como falei, também o noticiário me assombra. Alimentados diariamente, o medo e a incerteza parecem um híbrido de animal insaciável. No meu caso, obrigado por profissão a lidar com a morbidez com interesse diário e até dar vazão a ela, há dias em que parece um pouco pior. “Ossos do ofício”, se diz, e aqui digo, garanto, sem qualquer ironia.

A coisa virou uma máquina de moer carne, e mais que ela. Ainda não sei o que pensar. Talvez eu esteja governado pela emoção, não pela razão. Mas não é assim com todos?

Eu leio sobre mais de 80 mil mortos em cinco meses e me espanto.

1 thought on “Ainda não sei o que pensar

  1. Pois então. Não és o único angustiado nessa história. São bombardeios de opiniões leigas e, como se não bastasse essa competição de achismos, aparecem os doutores da ciência também divergindo. Assim, alimentando quem pensa nos prós e nos contras. Isolamento? Não isola? usa máscara? multa quem não usa? aglomeração de fato é prejudicial? aglomerar é preciso? cloroquina??? tomo? e os velhos, isolamos, e matamos eles de solidão??? e as escolas? abrimos e arriscamos as crianças? e se o risco não existe? mas, e os 80 mil mortos? são todos pela mesma causa? será que aumentaram esses números para aumentar os recursos financeiros para hospitais até então abandonados? Enfim, queria ter respostas para essas perguntas. Não sei, acho que foi Voltaire quem disse, que o homem deve ser julgado pela perguntas. Sinceramente, nestes tempos gostaria e muito de algumas boas respostas.

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