TUDO VAI PASSAR!

Como todos já sabem, nesta altura, alguns mais do que outros, a prefeita Paula Mascarenhas anunciou um lockdown para a cidade.

Lockdown, na própria grafia, é uma palavra hostil.

Confinamento, pouca luz.

Ausência, abandono, trava para baixo, adeus.

Não será um lockdown de longo tempo. Nem se pode dizer que é uma notícia boa, em qualquer sentido que se analise.

Durará das 20h de sábado próximo até às 12h da terça-feira posterior.

Um intervalo pequeno demais ante o tamanho do problema sanitário, tímido para garantir retaguarda hospitalar, restrito para o volume de doentes que vêm batendo à porta dos hospitais em busca de respirador.

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Após a divulgação, nesta quarta-feira (5), dos recordes de registros de mortos e infectados em um dia só, excessivos ante à oferta de leitos de UTI a Pelotas (e demais municípios da região), o alarde foi igualmente inédito, além de meio perturbador.

Cinco mortos em um dia só, dois ocorridos ontem e três há mais tempo, mas só agora computados, depois da confirmação dos testes. Infectados, 64.

Dos 30 leitos de UTI disponíveis para adultos pacientes de covid, 28 estavam ocupados. De 5 pediátricos, quatro livres. Uma face um pouco cruel: hoje, há vagas porque pessoas morrem. Os números mudam rápido, aumentando a sensação de insegurança.

Para completar o dia, na nota de ontem à noite, os Comitês da UFPel alertaram: “O retardo em uma semana na implementação de medidas mais rígidas de distanciamento implicará em mais óbitos e na necessidade de mais leitos no pico máximo de demanda”.

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A meu pedido, o reitor da UFPel, dr. em Epidemiologia Pedro Hallal, mandou mensagem ao site com sua posição sobre o lockdown. Ele disse que não achou ruim, mas o entende como insuficiente. Já os Comitês de Enfrentamento da Pandemia da UFPel e do Hospital Escola, vozes que ressoam um pouco como os coros nas velhas tragédias gregas, foram mais incisivos, como coros são.

Não de agora eles alertam para o perigo de colapso do sistema. Nesta quarta, o governo acusou o golpe, com a prefeita Paula convocando uma live para informar da emergência da situação e do lockdown.

Em nota, os cientistas registraram outro descontentamento – com a regressão da bandeira vermelha para laranja na região, regressão das medidas de distanciamento, com as quais a prefeita concordou, depois de dizer que não concordaria.

Quando se analisa exclusivamente a capacidade hospitalar, é difícil não admitir que os cientistas têm razão.

Como pode bandeira laranja se o alerta é vermelho intenso?

Em cinco meses de pandemia, a prefeitura não conseguiu ampliar a estrutura de leitos e tudo que implica, como a contratação de equipes, dificuldade principal, segundo a prefeita.

Tivesse conseguido, inclusive com apoio do meio empresarial, como é comum em países com maior tradição de compromisso comunitário, Pelotas talvez estivesse em situação menos angustiante, inclusive o setor empresarial, comerciantes etc, os que mais têm protestado contra as medidas restritivas da produção.

Como não foi possível vitaminar o sistema, estamos na situação difícil de hoje, contra a qual algo precisa ser feito já.

Ninguém pode dizer que foi pego de surpresa.

No final de ontem, os Comitês liberaram nova nota de alerta (AQUI).

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Numa entrevista, há mais de um mês, a prefeita me disse que conseguia dormir à noite, pela certeza de estar fazendo seu melhor. Mas que, em alguns dias, ocorria de despertar de supetão, um pouco antes do amanhecer, pensando.

Pode parecer ingenuidade. Mas nesse quadro de vidas em jogo, morte olhando na cara da gente com faturas nas mãos, minha impressão é de que vem lutando com a própria consciência para não ser tragada “totalmente” pela politica, porque, em grande parte, ela o foi.

Quando abriu mão de decidir por si, preferindo acatar, à revelia de si, as diretrizes do governo do estado em relação ao relaxamento das restrições originais no Plano das Bandeiras, abandonou as premissas científicas pelas quais parecia primordialmente se guiar.

Talvez tenha cedido para não ficar isolada entre o governo do estado e os prefeitos da região, que abraçaram juntos a justa causa do setor produtivo, ainda que hoje em cheque, por uma emergência que ninguém estava preparado para cumprir.

Gostamos de pensar que controlamos a vida. Estamos vendo: não é assim.

Como sair disto sem sacrifícios, não sei.

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Outro dia escrevi um artigo intitulado Agora é tarde!  Muitas vezes, como neste texto, argumento querendo não ter razão, porque o que digo não gostaria que fosse como digo. Infelizmente, parece que eu tinha alguma razão.

Tirando Collor (eu estava na sala da presidência quando ele deixou o governo), nunca vi de perto uma autoridade ser tão pressionada como Paula vem sendo. Como sou curioso e observador, tem sido uma oportunidade sem preço de acompanhar o comportamento humano.

Paula fez carreira no mundo acadêmico, professora-doutora em francês na UFPel. Essa é uma parte dela, a fundamental.

Mais tarde, em 2012, ingressou na politica, depois de tê-la bordejado e namorado desde os tempos de Bernardo de Souza, uma referência moral para ela.

Ontem, numa conversa em que a elogiei por responder sem reservas às perguntas de jornalistas e internautas, nas lives, a prefeita me disse: “Acho que esse é meu dever e minha maior proteção, ser transparente: falar tudo”.

Não está sendo fácil para ninguém, sobretudo os que dependem do SUS. Se Paula acorda de supetão antes do amanhecer e fica pensando, imagine como dormem e acordam os moradores das vilas da cidade.

Como no poema, metade dela é acadêmica, a outra metade é política, o que talvez ajude a entender por que vem oscilando nas decisões.

“Os leitos estão acabando, não tem como não ficar em bandeira vermelha…” …. “Tá, mesmo assim, eu vou aceitar a bandeira laranja…” …. “Vou fazer lockdown…”… “Por poucos dias, mas vou…”.

Lockdown de três dias, dois deles em fim de semana, embora sugira, não chega nem a ser uma contradição. Embora se possa dizer que fazer lockdown em bandeira laranja, menos gravosa, pareça uma contradição, e o seja, soa mais como um tipo raro de contradição que não produz conflito, mas, antes, o anula. E por isso, pensando cá com meus suspeitos botões, querendo mais uma vez ‘não ter razão’, me passa que na prefeita, por QI acima da média, a política engoliu a ciência, talvez da forma mais inteligente possível, parecendo que não.

Resta-nos torcer para que as providências em curso para abrir novos leitos deem resultado. Se derem, começaremos a reagir, e todo o ambiente, para todos, melhorará.

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Minha mãe era uma mulher maravilhosa, melhor que eu em temperamento. Mas muito dos genes dela estão comigo, no desejo de poder acreditar no outro, na maneira de rir etc. 

Ela amava futebol e, nos jogos da Copa, quando o Brasil vencia as partidas e os câmeras focalizavam a felicidade dos nossos atletas e a desolação dos perdedores, quando a imagem congelava em um derrotado com expressão paralisada, olhando o vazio, ela sempre exibia reservas de empatia.

“Foi bom, né, gente! Ganhamos mais uma. Mas me dá uma pena dos coitados…”.

Minha mãe era muito legal. Em dias ruins, sinto muita saudade. Uma sensação de que não retribuí a ela tudo que ela me deu.

Pode demorar um pouco. Mas vai passar. Super quinta!!!

1 thought on “TUDO VAI PASSAR!

  1. Excelente texto! Perfeita as indagações e pontuais questões levantadas. As respostas só saberemos adiante, infelizmente.

Obrigado por participar. Comentários podem ser rejeitados ou ter a redação moderada. Escreva com civilidade, por favor. Abç.