Sequestro

– Sargento, chegou o pedido de resgate!

– Já não era sem tempo. Quanto a esquerda quer para devolver as pautas sociais sequestradas?

– Um bilhão, em cédulas de R$ 50,00 não sequenciais, carro com vidros escuros para a fuga, fora Bolsonaro, os dois anos que tomaram da Dilma e mais quatro para Lula, renováveis automaticamente. E exige que a Lava Jato fique fora disso.

– Eles não podem manter os direitos humanos em seu poder indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, terão que ceder.

– Precisamos libertar imediatamente essas pautas reféns, sargento. Antes que a síndrome de Estocolmo as ataque…

– Para o feminismo e a luta antirracismo pode ser tarde demais. Viu aquele cartaz “I love cativeiro”?

– Sim, alguns dos reféns aderiram aos sequestradores. Precisamos de reforços, porque os estudantes e os sem teto estão prestes a desistir de estudar e de ter uma casa.

– Um negociador liberal poderia tentar uma troca. A direita entrega a economia em ordem, e eles libertam o meio-ambiente e o direito de ouvir Chico Buarque.

– E a descriminalização das drogas e do aborto?

– Estão blefando. Essas pautas não estão em poder deles. Foram abandonadas no caminho, há muito tempo. Nós as encontramos, à míngua – e colocamos num freezer, já que a direita também não quer saber delas.

– Ainda há esperança de resgatar, com vida, a liberdade de expressão?

– Pouca, mas há. O caso mais grave parece ser o da ideologia de gênero.

– Somos liberais, senhor, não sabemos como lidar com ideologia de gênero. Aliás, com ideologia de gênero nenhum…

– Engano seu, pequeno padawan. Nada do que é humano nos é estranho. Exceto, talvez, o cabelo do Guga Chacra e olho de gatinho da Renata Vasconcelos.

– Sargento, acaba de chegar uma mensagem do Quartel General. A direita capturou a moral e os bons costumes. Mandou dizer que abre mão das reformas econômicas e da redução do tamanho do Estado, que logo serão abandonadas em algum terreno baldio. E, para deixar claras suas intenções, o combate à corrupção já foi libertado. Está bastante debilitado, e apresenta escoriações generalizadas, pois foi jogado do carro em movimento.

– Vai ser difícil negociar com essas duas quadrilhas simultaneamente…

– O pior o senhor não sabe, sargento: ambas as facções declararam guerra para ver quem é que vai se apossar do populismo.

Eduardo Affonso é colunista de O Globo e, a pedido nosso, autorizou o compartilhamento, aqui, de seus posts no facebook.

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