Guedes caiu numa armadilha

Quando um ministro dá um dá ou desce (no caso, dá ou desço) público no presidente da República, o negócio fica simples. Ou o presidente mostra que o ministro está por cima da carne-seca ou não mostra.

Bolsonaro tinha que ter demitido Rogério Marinho hoje. Ou, no mínimo, transferido Marinho para outro posto. Qualquer coisa diferente disso é lero-lero.

Reunião com um monte de gente, com a presença dos presidentes de outros Poderes, é lero-lero. Discurso vazio sobre como o Brasil vai bem é lero-lero. Promessas vagas enquanto os caras que querem dinamitar Guedes continuam lá, é lero-lero.

Guedes, de sua parte, não deveria ter ido a reunião nenhuma. Reunião para quê? Para prestigiar o presidente em quem deu ultimato? Para conciliar visões irreconciliáveis? Mesmo que isso fosse possível, não existe hipótese de você recuar depois que deu um ultimato no presidente. Ou é do jeito que você quer, ou tchau.

Guedes deveria ter ficado em casa. O recado seria claro: “Presidente, o senhor sabe qual é minha posição. O senhor faz a reunião aí com os outros ministros, pensa o que quer, e me avisa amanhã.”

Guedes caiu numa armadilha trivial que Bolsonaro nem sequer sabe que armou. O ultimato de ontem perdeu metade da força, e continua tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Braga Netto, Ramos, Marinho e Tarcísio vão continuar conspirando contra Guedes mais do que nunca.

Momento TBT. Mario Henrique Simonsen, ministro no governo Figueiredo, estava sendo sabotado pelo ministro Delfim Netto, e não recebia o necessário apoio do presidente. Em uma bela manhã de quarta-feira, do nada (sem ultimato público, sem reunião, sem lero-lero), Simonsen apareceu de calção na praia de Ipanema. Nunca mais foi a Brasília. É improvável que Bolsonaro conheça essa história. É certo que Guedes a conhece.

Ricardo Rangel é colunista de Veja e, a pedido nosso, autorizou a compartilhamento, aqui, de seus posts no facebook..

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